domingo, 28 de maio de 2017

Diretas já : ditadura e democracia formal

            Cá estamos nós outra vez. Entre o primeiro semestre de 1983 e 25 de abril de 1984, os brasileiros saíram às ruas numa campanha que nos mobilizou como nunca em nossa história - desconfio bastante da avaliação da Folha de São Paulo, que calculou “cientificamente” a passeata contra Dilma Roussef, em 2016, como a maior da história. Eram as “Diretas já!”. Naquele 25 de abril foi votada a emenda constitucional que estabelecia as eleiçãoes diretas, não aprovada por não atingir os dois terços do Congressso dos apaniguados do regime autoritário. Não foi uma derrota, certamente. A campanha culminava, de certa forma, um longo processo de resistência à ditadura e de construção de uma sociedade civil com instituições ancoradas nos movimentos populares, nos bairros, no campo e nos sindicatos, e também na enorme massa do que então ainda chamavam de minorias: mulheres, negros, movimentos identitários de gênero, etc. A “derrota” na votação antecedeu de alguns meses a eleição (indireta) de Tancredo Neves e, sucessivamente, o processo de elaboração da Constituição de 1988 e as eleições finalmente diretas de 1989. Evidentemente, a Assembleia Constituinte e seu produto imediato foram e são bem mais importantes que as eleições na formação do processo democrático no nosso País.

       De uma certa maneira, o estabelecimento de uma ordem democrática pela Constituição chamada de “cidadã”, contraditoriamente, marcou o início de lentos mas progressivos enfraquecimento e desestruturação da mesma sociedade civil que atingira o que parecia para muitos ser seu maior objetivo. Principalmente os governos FHC e do PT, com estilos e linguagens diferentes, promoveram a erosão das bases representativas e coletivas das instituições populares, estimulando o empreendedorismo e as “boas formas de gestão” e/ou a cooptação e atrelamento ao Estado, no que alguns autores denominam “onguização” das organizações populares.

        Boa parte do que se costuma identificar como uma polarização na sociedade brasileira  de hoje vem desse empobrecimento da sociedade civil e de sua partidarização em um bloco que não consegue expressar efetivamente os interesses mais gerais das massas de trabalhadores e excluídos. Por isso as manifestações marcadas exclusiva ou majoritariamente por bandeiras partidárias, de seus conhecidos e estreitos aliados, e de organizações que constituem extensões das mesmas, têm sido quase sempre – e sobretudo nas ocasiões mais importantes – minoritárias em comparação com as mobilizações dos setores médios e de sentido reacionário.

          O horizonte opaco e sem alternativas que se apresenta depois da destruição da “coalizão” populista e da derrubada do governo petista tem agora uma – e apenas uma – saída, e esta é, justamente, novamente, a das eleições diretas. Misteriosas maquinações envolvem todas as instituições republicanas: executivo, legislativo e judiciário – com a participação nebulosa dos oligopólios da imprensa e do “entretenimento” (também diferentes “linguagens” ou dispositivos a serviço dos mesmos fins), e das organizações corporativas e patronais. A manipulação dos acontecimentos visa claramente a manutenção, extensão e aprofundamento das “reformas”, isto é, a eliminação dos direitos do trabalho e das políticas públicas sociais. E para que tal processo continue é necessário que ele se dê no espaço controlado por essas forças, o Congresso. Eleições indiretas com a “manutenção das reformas”, isto é, o retrocesso brutal, e a preparação de eleições em 2018 (ou, quem sabe, um pouco mais tarde...) de forma a reinstituir um equilíbrio formalmente democrático sob a hegemonia dessas forças que procuram não se identificar mas que são claramente as do capital financeiro e internacional.

              Uma campanha pelas eleições diretas já é a única alternativa em que esse poder de manipulação se vê enfraquecido, o único processo que ele é incapaz de controlar inteiramente. As mobilizações deste domingo, 28 de maio (especialmente no Rio de Janeiro, que foram convocadas de maneira ampla – escrevo isto antes de saber seu resultado e repersussão), mostrarão se estamos sendo capazes de reunir o sentimento da maioria sem estreitas bandeiras partidárias, se somos capazes de construir uma unidade avassaladora que sacuda essa classe política corrompida até em sua carne. Se a manifestação no Rio for ampla e grande (que aqui não são sinônimos), como nas primeiras diretas já, de 1984, provocarão um efeito de adesão crescente e uma “competição” saudável entre as cidades para ver quem faz a maior concentração ou passeata. A repetição da Greve Geral, numa avaliação muito cuidadosa (Greve Geral não é brincadeira e fazê-la sem uma boa preparação só leva ao desgaste dessa forma de manifestação e luta), não pode ser excluída da evolução dos acontecimentos.

            Como disse Churchil: “Agora não é o fim. Não é nem o começo do fim. Mas é, talvez, o fim do começo.” Esta campanha é o marco. A votação, no Congresso, das emendas que preveem eleiçoes diretas pode muito possivelmente redundar na repetição do fatídico 25 de abril de 1984. Na edição de hoje, o jornal Folha de São Paulo ameaça: as maiores bancadas partidárias pretendem votar a favor de eleições indiretas; elas têm 397 deputados e 72 senadores, respectivamente 77% da Câmara e 89% do Senado. E, como sabemos e já experimentamos historicamente, a classe política não se intimida nem se peja de votar contra a vontade popular.

              Ao contrário de enfraquecer nossa disposição de ir decisiva e unitariamente às ruas para nos manifestarmos, esse argumento mostra que, ainda que não resulte em eleições diretas neste difícil quadro institucional entre um governo falido e um prazo limitado para as eleições regulares, as diretas já podem, devem ser um estímulo fundamental para a reorganização do povo em torno de instituições que o fortaleçam e representem. É uma flexão de músculos, um exercício de organização que, com qualquer resultado, deve propiciar outras formas, sobretudo as permanentes, as instituições poppulares. Além disso, certamente contribuirá para a saída desse medíocre usurpador chamado Michel Temer.

               A lição da história, de fato, mostrou que o objetivo final não pode ser a ordem democrática formal, com eleições determinadas pelo poder econômico, mas o estabelecimento de uma democracia muito mais radical e uma justiça social real e concreta, muito para além da “redistribuição” limitada da riqueza produzida pela maioria mas usurpada por uma minoria ávida, corrupta e implacável.

              Diretas já! Mas também sindicatos renovados e conselhos de trabalhadores nas fábricas e empresas; ações cooperativas, organizações de auto-defesa, educacionais e culturais no campo; associações de moradores nos bairros; organizações politicas e culturais de mulheres, de grupos étnicos, de gênero. E, em toda parte, clubes e associações esportivas e culturais: cineclubes, grupos de teatro, de dança, clubes de escrita e criação, e muito mais. Só assim podemos construir, desde já, o corpo de instituições populares que nos permitirão atingir e manter uma sociedade efetivamente democrática e justa.

Felipe Macedo
28 de maio de 2017


sábado, 3 de dezembro de 2016



Quando vejo organizações nacionais ou encontros representativos de cineclubes se manifestarem “em defesa do cinema de autor” ou de um “cinema de qualidade” percebo que muitos cineclubistas ainda não realizaram em toda a sua extensão o que representa o público, e sua relação com o cineclube e o cineclubismo. Essas expressões entre aspas estão presas a concepções estéticas elitistas originadas no impressionismo francês dos anos vinte e superadas pela última vez ao final do ciclo da Nouvelle Vague. Ou se prendem a uma postura essencialista e paternalista ancorada na noção do “bom cinema” do espectador cristão, falecida pouco depois. A autoria, como categoria ontológica, nada mais é que uma justificação filosófica para a propriedade privada econômica, ou moral, como fator de prestígio social.
Assim, muito sucinta e esquematicamente, resolvi escrever este pequeno artigo, um estímulo e uma provocação à reflexão sobre o cineclubismo nestes tempos de revolução técnica, antesala do caos ou da Revolução.

O Cinema do Público

Nos anos 70, à medida que crescia o movimento cineclubista comprometido com a resistência à ditadura militar, e que deitava raízes nos movimentos sociais e meios populares, surgiu a percepção de que os cineclubes eram uma forma de organização do público, resultantes da expressão de suas necessidades, de seus interesses e do fato de que o cinema comercial não atendia esses objetivos, pelo menos para além da sua própria dependência da produção de lucro.

Compreender o cineclube como uma organização do público representou uma ruptura com a concepção dominante de cineclube como uma instituição voltada ao culto do cinema. Isso aconteceu um pouco em toda parte, sobretudo no terceiro mundo, e muito especialmente na América Latina. Mas talvez o cineclubismo brasileiro, que atingiu naquele período um nível muito avançado de organização, tenha sido o que mais claramente demonstrava essa concepção e prática, e que começou a sistematizá-la como teoria. Na Itália, talvez pela influência do pensamento gramsciano – e, de fato, coincidentemente na Sardenha – também se teorizava, na mesma época, sobre a primazia do público sobre o cinema na organização do cineclubismo. Precocemente desaparecidos, Fabio Masala e Filippo de Sanctis não podem ser esquecidos por todos que se interessem pela história dos cineclubes.

Como dissemos, isso aconteceu um pouco em toda parte, demonstrando que a verdadeira característica do cineclubismo aflora sempre que consegue superar a barreira ideológica do elitismo e das instituições culturais conservadoras que o relegam a um papel de culto alienado ao cinema. De fato, o cineclubismo nasceu claramente como uma instituição de resistência ao cinema de dominação e exploração que se consolidaria a partir da segunda década do século passado, sendo depois igualmente enquadrado e “institucionalizado” em grande parte.

O público é o autor

Ironicamente, foi em grande medida nos cineclubes da década de vinte que se desenvolveu a noção do autor individual como criador, responsável e proprietário das obras cinematográficas. Ideias que atingiram seu auge ainda num ambiente cineclubista, o da Nouvelle Vague dos anos cinquenta.

No entanto, as obras de arte são o produto de um processo cultural permanente e ininterrupto, fruto de um diálogo social em que todas as partes contribuem. Mesmo quando é possível se identificar um autor individual e original de uma obra – o que não é nem tão óbvio nem tão comum quanto se pensa -, ele está expressando um momento desse diálogo. O sentido final da obra é dado – também numa relação permanente, e em permanente mutação – na recepção, pelo diálogo social, nos termos em que o descreveu Bakhtin[i]. O consumo é produtivo. As abstrações dualistas emissor-receptor, autor-espectador, não existem na realidade: esta é uma espiral multidirecional que se modifica o tempo todo na história. A categoria permanente nesse diálogo é o público, do qual fazem parte os autores formais ou percebidos, seja qual for a medida e intensidade de seu envolvimento. O público é o autor social do sentido da arte numa luta ideológica ininterrupta pela apropriação desse sentido.

Cinema do capital e cinema do público

Como  o nome já diz, no sistema capitalista o capital organiza as forças produtivas assegurando-se da apropriação de seus resultados. O sistema funciona adequando todo produto e toda forma de produção à realização do lucro. E descartando, eliminando ou relegando a uma posição marginal o que não se adéqua. A história do cinema constitui um bom exemplo. Inúmeras invenções e processos foram sendo selecionados com base em sua adequação ao mercado, à capacidade e possibilidade de organizar esse trabalho para dar lucro. Até a metade da segunda década do século vinte esse foi um processo de várias vias e não poucos conflitos, que – muiito simplificadamente – acabaram com a prevalência, a hegemonia do cinema dito clássico, hollywoodiano. Outras alternativas foram abandonadas, perseguidas ou marginalizadas. Mas, entre as sobreviventes, continuou o processo permanente de tentativa de apropriação pelo capital.

De uma forma esquemática, existe um cinema do capital, voltado primordialmente para a produção de lucro, e outras práticas e instituições cinematográficas que, mais ou menos alijadas do sistema capitalista, se organizam sobretudo em torno do seu valor de uso[ii] para seu público, em detrimento de seu valor de mercado. Podemos falar assim, genericamente, de um cinema do capital e de um cinema do público. Cada um deles constitui abstratamente uma matriz geradora de instituições que diversificam e concretizam as formas de apropriação social do cinema (ou do audiovisual em geral).

Instituições do cinema dominante e instituições do público

O período chamado de institucionalização do cinema é geralmente situado entre 1905, com o surgimento dos nickelodeons ou salas fixas, e algum momento, menos preciso, na segunda metade de década de 1910, quando se consolidam as principais ou básicas formas de linguagem, de produção, circulação e recepção do cinema. Esse período – que chamamos em outros textos de a batalha do nickelodeon – foi justamente um conflito, ou uma série de conflitos interligados, entre as tentativas de imposição de modelos pelo capital e a resistência dos públicos, culminando no estabelecimento de um resultado composto mas essencialmente adequado à produção máxima do lucro. Esse cinema hegemônico é constituído de uma série de instituições – de linguagem, estilo, formas de consumo, etc – que continuam a serem criadas até hoje.

Entre elas podemos citar a forma literária linear da narrativa, a montagem transparente, a maioria dos gêneros cinematográficos, o sistema de astros e estrelas, as diferentes formas arquitetônicas (dos palácios aos multiplexes) de organização da recepção, e muitas outras.

Já do lado do público, resultado da resistência mais ou menos consciente ou organizada, diversas práticas e instituições marginalizadas experimentam diferentes trajetórias. A mais paradigmática – mais antiga e generalizada – de que se originam diversas outras, são os cineclubes. Mas também as cinematecas, os festivais de cinema, uma parte da crítica, os estudos universitários de cinema. Várias formas de produção e de estéticas de representação também evoluem fora ou em diferentes níveis de marginalidade em relação ao cinema comercial: a estas podemos chamar de cinemas do público. Evidentemente, são também apropriadas e agregadas aos mercados em alguma medida, conforme o caso. Ou são adotadas e protegidas pelo Estado, na atribuição clássica deste, de evitar o conflito. Mas, sem produzir lucro, sua dinâmica experimenta uma margem variável de autonomia em relação ao capital.

Os cinemas do público

Não apenas excluídos dos mercados, mas igualmente desconsiderados – pelo menos até muito recentemente – pela maioria das instituições sociais, como a imprensa e a universidade, a teoria e a história do cinema, essas formas são denominadas sempre em alguma medida pela sua excepcionalidade em relação ao modelo hegemônico (e, não raro, de forma pejorativa): cinema amador, cinema de família, cinema experimental, cinema científico, cinema de vanguarda, cinema operário, cinema negro, cinema feminista, cinema LGBT. Mas também, em grande medida, o cinema documentário, e até mesmos os cinemas nacionais, sobretudo nos países “não produtores” ou onde a produção não encontra mercado ou não consegue se industrializar em alguma medida.

Essas classificações, obviamente, são mais ideológicas que qualquer coisa. Os estudos de cinema estão hoje tentando incorporar essas práticas em uma teoria mais geral do cinema, já que a existente foi claramente abalada pela diversificação do universo audiovisual. No plano sócio-econômico vivemos outra batalha, que podíamos chamar de batalha das redes sociais, ou da apropriação dos espaços virtuais – políticos, econômicos, ideológicos, estéticos.

Estes “cinemas” têm todos uma relação muito próxima com os movimentos cineclubistas seus contemporâneos ou conterrâneos – e nem sempre de harmonia. A revolução audiovisual em andamento, além de reposicionar essas práticas e instituições, está criando novas, e todas elas são indispensáveis para a criação de um projeto de cineclubismo que pretenda se ajustar aos novos tempos e continuar a exercer um papel de organização representativa do público no campo do audiovisual.

Felipe Macedo – dezembro 2016




[i] Mikhail Bakhtin (Volochinov), Marxismo e filosofia da linguagem. Capítulos 1, 2 e 3. São Paulo: HUCITEC Editora
[ii] Karl Marx O Capital Crítica da Economia Política Livro Primeiro: O processo de produção do capital. Primeira Seção: Mercadoria e dinheiro Primeiro capítulo.  A mercadoria. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1867/capital/livro1/cap01/01.htm

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Corrupção

Como problema ético, a corrupção fica na fronteira da psicologia e da cultura, do indivíduo e do coletivo. Acredito que o primeiro, o sujeito tomado isoladamente, se molda de forma autônoma no caldo de cultura do ambiente social. Todos têm escolha, mas o bandido pobre é impulsionado pela necessidade; o assaltante rico, pela oportunidade. A corrupção é uma forma de roubo, também pode ser compreendida como a apropriação privada - individual ou organizada – de bens ou direitos coletivos. Resquício de formas primitivas de sobrevivência, ela se incorpora de diversas formas e em diferentes níveis nas culturas das nações e, até certo ponto, da Humanidade.

Numa simplificação esquemática – como se requer nestas redes privadas mas ditas sociais – podemos citar o exemplo da incorporação à moralidade institucional dos países mais desenvolvidos economicamente dos salários e benefícios tidos como aceitáveis para executivos, na ordem dos milhões, dezenas e até centenas de milhões (em qualquer moeda forte) anuais e sua tributação diferenciada. Nativos desses mesmos países se chocam com os hábitos de propinas de 1, 2, 10 dólares necessários a cada passo de uma demanda burocrática – liberar um produto na alfândega, obter um certificado ou autorização – ou de pequenos serviços, em certos países da África, por exemplo.

No Brasil reunimos o pior desses dois mundos. Herdeiros do Estado patrimonial deixado pelos portugueses (ou até pelos visigodos e romanos, como dizia Raymundo Faoro), com predominância de estamentos produtores e controladores de uma gigantesca burocracia, vivemos num paraíso de regras e dificuldades que apelam para soluções “inventivas” e jeitinhos extracurriculares. A enormidade de cargos públicos[i], o volume de regras extensas e gongóricas, a extrema hierarquização e morosidade do controle juciário, aliados a um éthos de privilégios e exceções elitistas, introduz aquela pequena corrupção como fator de igualdade e até de sobrevivência entre a massa de excluídos do sistema produtivo dominante, e a adapta para os escalões da burocracia estatal, nos poderes executivo, legislativo e judiciário. Ao mesmo tempo, o restante da classe dominante – na indústra, no agronegócio, nas finanças – dispõe e usufrui, ainda que em escala proporcional à sua própria grandeza relativa, dos dispositivos de desigualdade de padrão desenvolvido. Ou bônus sem ônus.

Toda corrupção é nociva mas, evidentemente, os milhões de dólares pagos como salário e bônus ao executivo de uma grande corporação ou como propina para o deputado, prefeito ou ministro (entre outros) têm um peso social muito diferente dos 10 ou 20 reais dados ao flanelinha que se apropria do espaço público ou do trocado entregue ao vendedor de balas, provavelmente roubadas, no sinal fechado. Quantias enormes subtraídas direta ou indiretamente do patrimônio público pesam realmente nos orçamentos sociais: tiram dinheiro dos investimentos em transporte, defesa, educação, de tudo um pouco. Ou um pouco mais que um pouco. No caso da saúde, por exemplo, o dinheiro ou a falta dele representam vacinas, remédios, tratamentos. Pessoas morrem ou ficam inabilitadas por toda a vida por causa dos fluxos invisíveis desses recursos. Na China existe a pena de morte para os crimes contra a economia popular. No Brasil, tal como o inconsequente maconheiro ou o ocasional consumidor de cocaína não sentem nenhuma responsabilidade sobre o estabelecimento do poder do crime organizado nas comunidades populares, na “criação de empregos” no tráfego e no crime em geral para crianças e adolescentes mais pobres, os políticos, empresários, autoridades judiciais e religiosas também parecem – ou aparentam – não ver relação entre as nebulosas operações financeiras e políticas de que participam e as incontáveis mazelas que afligem nosso País. Não, essa corrupção “de rico” é realmente um crime muito grave.

Qualquer cidadão minimamento informado – e não são tantos assim - sabe que a quase totalidade dos partidos nacionais com representação parlamentar é corrupta, nos termos acima descritos. Mais que isso, a corrupção é a razão principal da existência de muitos partidos – em número, a maioria das siglas – que existem apenas para receber recursos públicos e negociar votos e espaços midiáticos, também públicos. Os partidos mais à esquerda foram, durante muito tempo, exceção a essa “regra”, mas muitos perderam essa característica já lá se vão muitos anos. Para parlamentares evangélicos, qualquer ação se justifica por estar ao serviço do Senhor (como ateu, essa ideia é para mim um mistério: será um deus qualquer ou aquele senhor que manda na igreja?), para alguns mais à esquerda, a moralidade estaria nos altos desígnios sociais que sua organização – e eventulamente sua generosa pessoa – são as únicas a poder assegurar. Para a maioria, em todos os casos, é mesmo uma picaretagem, tipo uma sujeirinha que deve ir para debaixo do tapete. PT, PMDB, PSDB, PSD, PP, PR, PSB, PTB, DEM, PRB – para citar, em ordem decrescente, apenas as dez maiores bancadas da Câmara federal – estão todos igualmente imersos nessa cultura de corrupção[ii].

Na China, muitos desses deputados seriam fuzilados – e isso estaria de acordo com a consciência cívica que por lá se promove, diante, inclusive, de um grau elevado de corrupção, em parte beneficiado pela opacidade do governo e por outros atavismos culturais. Os brasileiros somos mais tranquilos quanto a isso, aqui só executamos corruptos (e mesmo alguns desafetos) em sonho ou na internet. A corrupção é percebida socialmente – e promovida pelos poderosos, muitos deles corruptos - como falta menor. Assim, o tratamento da corrupção em termos políticos e mediáticos tem sempre sido relativizado, abrandado, abafado – agora também por grande parte da esquerda. Mas em certas ocasiões, acontece o contrário. Os governos e instituições com presença ou influência progressista são atacados justamente pelos focos centrais da corrupção por... corrupção. A pecha da corrupção é das mais produtivas calúnias: mesmo – ou especialmente no caso de – não haver provas, ela se insinua e cola no difamado, de forma parecida com as insinuações sobre sexualidade perversa. O ato de denunciar já funciona como demonstração: “onde há fumaça, há fogo”. Virou um fator meio clássico na desestabilização política e social no Brasil. Essa era a marca da UDN, partido conservador que existiu entre 1945 e o Golpe Militar de 1964, de que foi a principal base político-institucional. O PMDB – e toda uma coorte de políticos indiciados e condenados de outros partidos – reinterpreta a farsa da UDN meio século depois. E, para distrair o público de seus próprios crimes, apresenta os do PT (com quem aqueles mesmos políticos articularam e prevaricaram à farta) como únicos e especialmente danosos.

A manobra é diabólica, audaciosa, impudente mesmo. E brilhante, diante da posição em que coloca os setores progressistas da população brasileira. A traição dos antigos aliados do PT na corrupção se traveste de movimento ético-político para justificar o aniquilamento do ex-aliado e legitimar o ataque inédito aos direitos sociais. Se não formos capazes de uma mobilização que esclareça essa situação, é bem provável que o plano golpista dê certo. Mas boa parte dos setores mais organizados da oposição ao golpe estão ou foram ligados ao governo derrubado e não conseguem superar essa ligação. A relativa injustiça (por ele ser tomado como bode expiatório) que se comete contra o grande líder desse segmento, Lula, obriga seus antigos apoiadores a defendê-lo como centro da questão política – e, dessa forma, a estreitarem a base de resistência ao golpe, confundindo os interesses e direitos da maioria da popúlação com o projeto político partidário que a maioria da população não apóia. Confundem PT e direitos sociais, Lula e democracia. Mobilizam a rua não contra o golpe e as classes dominantes corrompidas até a medula, mas são obrigados, até certo ponto, a fazê-lo sob as bandeiras do PT e de setores a ele ligados, empunhando imagens de Lula e Dilma, o que confunde e impede uma mobilização mais ampla e sobretudo mais eficaz. É a chamada sinuca de bico.

Lula deve ser defendido na Justiça e nos foros político-institucionais com todo o vigor de que dispuserem seus partidários, mas a luta política mais geral tem que se concentrar na realização de eleições o mais breve possível, como expressão da recusa enfática pelos brasileiros de um governo ilegítimo e de um programa político que assalta o País não mais sob a forma de mutretas corruptas, mas como projeto institucional de ampliação e aprofundamento da exploração da maioria da população.




[i] O Brasil tem 23.579 cargos públicos em comissão, comparados a 8 mil nos EUA, 4 mil na França, 600 no Chile, 500 na Alemanha, 300 na Inglaterra (Revista Veja, 19, nov., 2011, disponíevl em(http://veja.abril.com.br/brasil/brasil-tem-23-579-cargos-de-confianca-o-triplo-dos-eua/ . Nossa Constituição tem 28 anos, 250 artigos, com 93 emendas constitucionais; a estadunidense tem 227 anos, 7 artigos e 27 emendas. A lei que regulamenta os contratos do governo federal tem 282 páginas na versão impressa pelo Tribunal de Contas do DF:
(http://www.tc.df.gov.br/c/document_library/get_file?uuid=475ad4d0-5a80-4701-9bba-5cd0b1ed4075&groupId=657810 . O tempo médio de tramitação de um processo de execução fiscal é de 8 anos, 2 meses e 9 dias apenas na Justiça Federal de Primeiro Grau: (http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/comunicado/110331_comunicadoipea83.pdf)

domingo, 4 de setembro de 2016

O Partido Cineclubista ou
Que fazer?

O fim da história

Já faz um bom tempo, a gente dizia que era parte do Partido Cineclubista. Uma expressão brincalhona; éramos todos – ou quase todos – comunistas, ou muito próximos disso, e havia ali uma certa homofonia, que ressoava engraçada ou instigante, além da coincidência com a sigla do Partidão. Mas era também mais que isso, a gente se sentia realmente parte de um movimento político que tinha por vocação transformar  o mundo. Nosso objetivo não era apenas derrotar a  ditadura, mas sim fazer a Revolução. O partido, ali, era (talvez não de maneira inteiramente consciente) o partido segundo Gramsci, o partido lato sensu, o Príncipe Moderno: o conjunto de instituições que conduziriam a maioria da população à direção de um profundo processo de transformação da sociedade. O cineclube era uma dessas instituições; o cineclubismo, nosso campo de batalha, e o objetivo final – pouco visível - era um novo cinema, expressão de uma nova sociedade. Tudo isso meio implícito, meio consciente na expressão espirituosa, mas também na nossa militância cineclubista.

No final dos anos 70 escrevi Hegemonia e Cineclube[i], onde definia o cineclube como uma instituição geradora de valores criada pelo público. Na terra do comunista sardo, Fabio Masala e Filippo de Sanctis aprofundavam a questão do associativismo democrático, que desembocaria na Carta dos Direitos do Público[ii] alguns anos depois. Como já escrevi alhures, essa postura, que interpretava no plano teórico as práticas do “partido cineclubista” que organizavam centenas de cineclubes no Brasil e em outros países, principalmente da América Latina, representava uma ruptura com o cineclubismo elitista e cristão, mistura das heranças das grandes personalidades “cineclubistas” francesas – que vão de Louis Delluc a François Truffaut, passando, claro, por André Bazin – e do programa político católico para o cinema, lançado por Pio XI nos anos 30 e tornado realidade pela OCIC[iii]. Mas a primazia dada ao público por nós também significava um reatamento, uma atualização das atitudes fundadoras do cineclubismo operário e revolucionário do começo do cinema, presentes em toda a trajetória histórica do movimento.

Hoje, esse tipo de objetivo mais amplo está meio fora de moda; não é à toa que o chamam de utopia: coisa desejável, mas irrealista, irrealizável. Ninguém, ou muito poucos, propõem a Revolução, a transformação radical da sociedade, o socialismo ou o comunismo (que não são utopias). Estes dois últimos termos existem apenas como penduricalhos arcaicos nas denominações de algumas organizações burocráticas que às vezes os sacodem em campanhas eleitorais nas periferias ou quando se defendem de acusações de corrupção. Mesmo nos ambientes proletários, nas comunidades da massa de excluídos do nosso sistema social, reivindicam-se melhorias, reformas, mas nada que abale os fundamentos da situação mesma que os exclui. Ninguém mexe no essencial. Se há alguma totalidade envolvida na consciência que se propõe sobre sua condição, é uma ideia vaga, meio metafísica, como a de Injustiça. Isso quando não se adota logo de uma vez a regra do jogo e se parte para a busca do sucesso pessoal, através do empreendedorismo – em que todos podem ser empresários de sucesso -, do futebol - todos craques muito bem pagos – e até do cinema – todos realizadores com prestígio – como ferramenta e caminho para a superação da exclusão e da miséria, sempre numa perspectiva individual. Os que não conseguem, é porque não merecem. Ou não têm a graça divina.

Porém... (e tem sempre um porém, como dizia o Plínio Marcos) ao invés de termos chegado ao “fim da História”, como queria aquele professor nipo-americano, o Francis Fukuyama, a aparente dominante ausência de outras perspectivas não se manifesta por uma acomodação social diante do triunfo final do liberalismo. Em toda parte continuam os conflitos: abertamente, genocidariamente, nos campos dos países mais (ou menos) pobres, na África, na Ásia, no Oriente Médio; no eufemismo da violência social cotidiana, como no Brasil, entre tantos outros, ou travestido de um terrorismo meio psicótico nas sedes políticas do domínio planetário. No Brasil, que fica meio que na metade desse caminho, país de desenvolvimento médio e top de desigualdade, marcado secular e essencialmente pela dependência e subalternidade no processo econômico e político mundial, esse quadro tem características muito próprias.

O golpe

Tivemos – entre 2002 e 2016 - um governo populista que, como na tradição varguista, promoveu reformas sociais importantes, mas limitadas. Isso ao mesmo tempo que contribuía, acessoriamente, à maneira brasileira, para a divisão e amortecimento dos movimentos populares, e para a descaracterização de seus objetivos – fenômeno muito mais abrangente e profundo que vem, como sempre, dos países centrais, que determinam a situação mundial. Mas, como sempre lembrava Darcy Ribeiro, nossas classes dominantes são particularmente execráveis: nem mesmo lucrando com um governo que, no limite, ajudava a abrandar conflitos sociais, puderam aceitar os pequenos avanços sociais e uma certa resistência institucional à retirada de direitos que dificultam o incremento da espoliação dos trabalhadores. Um golpe, então, foi articulado e executado: acaba de se consumar[iv] com o afastamento da presidenta eleita e a entronização de um governo provisório cuja mediocridade excede até mesmo o baixíssimo padrão da chamada classe política brasileira. Para os golpistas, as próprias mazelas do governo deposto e de sua base política devem, complementarmente, enfraquecer substancialmente pelo menos suas bases partidárias, senão as sociais.

Mas a insignificância intelectual e a mesquinhez ética não são os atributos em que mais se destaca esse movimento golpista e nossas “elites”. Creio que seu pior predicado é a ganância voraz revestida de total insensibilidade humanitária diante do sofrimento que possa resultar de seu apetite financeiro imediatista. Como no golpe militar de 1964, não hesitam diante da possibilidade de derramamento de sangue. De fato, a derrubada de um governo legítimo, apoiado em votação expressiva e pela clara manifestação de uma parcela significativa da população, pode perfeitamente levar a uma forma de resistência mais robusta que as marchas ou ocupações de espaços públicos, e mesmo estas podem resultar em conflitos graves, com mortos ou feridos. A própria sombra de uma guerra fratricida nunca esteve excluída, nem em 1964 nem agora, ainda que a própria tibieza do governo deposto, bem como a desorganização das massas – para a qual contribuiu – não indique uma probabilidade maior. Nada disso, contudo, jamais deteve nossas classes dominantes. Compreende-se: qualquer conflito, no contexto de fragilidade ideológica e política dos segmentos populares, produziria suas vítimas apenas nas ruas e nas comunidades populares: essas ditas elites nunca correriam nenhum risco. Elas vivem literalmente blindadas, e esse “custo” lhes é indiferente. As esquerdas (ou ao menos seus eleitores) e os segmentos populares, por outro lado, seriam as próprias vítimas; não podem, portanto, deixar de considerar essa variável. Valeria a pena dar a vida por um programa de governo que visa apenas a reformas limitadas? E, se valesse, há organização e unidade suficientes para enfrentar as forças do golpe?

A resposta para essas duas questões é negativa. A mudança social que os trabalhadores e os excluídos necessitam vai muito além da geladeira e da faculdade de má qualidade que constituíam o projeto do governo deposto. E mesmo que assim não fosse, a organização social da maioria da população é hoje absolutamente insuficiente e precária, sem número, sem unidade e sem direção para elaborar e propor um projeto consistente de transformação radical da sociedade. O problema é maior e mais complexo que isso. Enquanto boa parte das esquerdas – admitindo-se que esse termo se refere aos setores sociais que querem mudanças democráticas e progressistas – faz parte desse modelo reformista limitado que mencionei, outra parte não assimilou ou não soube traduzir em prática política a formidável experiência histórica que foi a queda da União Soviética e a falência desse modelo de socialismo em praticamente todos os países que o adotaram.

Falência do socialismo

Aqui é preciso abrir um pequeno parêntese: falar em falência do modelo de socialismo é considerar que ele falhou em cumprir o que dele se espera ou o que ele mesmo propõe: simultaneamente e em todos os níveis, justiça social e democracia em valores absolutos. Esses objetivos ou foram efetivamente traídos ou não foram alcançados, ou sequer eram claramente visíveis, mesmo depois de um período relativamente extenso de implantação: o comunismo soviético durou mais de 70 anos. Essa falência não se define por comparação ao modelo capitalista dominante, que se fundamenta justamente, especificamente, na exploração da maioria por uma minoria e na reprodução crescente de práticas que levam à extinção da Humanidade.

Voltando às esquerdas revolucionárias: elas mantêm, então, um discurso e prática que se identificam com a - e constituem uma boa parte da - razão da “derrota do socialismo”. Seguindo a formulação clássica marxista, aceitam que a luta de classes se dá em todos os níveis da vida social: no nível da produção econômica, no plano da ação e da representação política, e no âmbito dos valores ideológicos – que vão da fala ao sonho, por assim dizer, passando pela moral, pela religião, pela arte. O erro que contribuiu de forma importante para a “queda do socialismo” e que não foi superado por essas esquerdas consiste na supervalorização da esfera política (e da esfera política institucional, em muitos casos) em relação às esferas econômicas e ideológicas da luta de classes.

A ideia de hegemonia implica em que não se pode estabelecer e manter a direção da sociedade apenas pela força (domínio e coerção, esfera política) ou apenas por um projeto de sociedade capaz de ser visto como melhor (direção e consenso, esfera ideológica). As duas coisas são indispensáveis. Na estrutura capitalista de hoje, além do monopólio da força, as classes dominantes conseguem como nunca vender a superioridade e a inevitabilidade do sistema. Mas, apesar da força das organizações e instrumentos de convencimento de que dispõem, somente o monopólio e a censura combinados em diferentes níveis conseguem viabilizar esse “convencimento” e a adesão das massas ao capitalismo. O elemento de força está sempre presente em alguma medida e isso acontece essencialmente porque se trata de um grande e essencial engodo, uma grossa mentira. Não há melhor exemplo, acho, do que a verdadeira campanha – travestida de jornalismo - feita pelas mídias brasileiras para derrubar o governo constitucional do Brasil. Além do conceito de hegemonia, Gramsci falava da importância da superioridade intelectual e moral que devem ter as ações e instituições de uma classe que pretende estabelecer sua hegemonia. A noção de superioridade moral e intelectual parte do princípio de que a sua proposta deve parecer verdadeira, eticamente justa, mas também melhor para a maioria. A educação, a propaganda, até a religião podem contribuir para essa missão de sustentar um sistema, mas, a longo prazo – e estamos falando de prazos históricos – o elemento coercitivo da mentira, isto é, da inadequação essencial do sistema às necessidades do conjunto dos seus integrantes, acaba prevalecendo. Isso porque essa mentira não é apenas uma ideia produzida pela mídia, ou um preceito moral, mas um fato social bem concreto, que se situa no plano da reprodução essencial da vida, isto é, na esfera econômica. No caso do sistema capitalista, a mentira é a mais-valia, a exploração de muitos, da maioria, por uns poucos,que é a essência das relações sociais no plano mais básico, da economia.

No caso do comunismo de inspiração stalinista, o sistema que começou com a eliminação da exploração econômica não foi capaz de gerar práticas e instituições nos planos político e ideológico que acompanhassem, exprimissem essa nova condição. Ora, essa divisão entre econômico, político e ideológico é uma abstração, a realidade é uma totalidade em que os níveis se imbricam e se influenciam, determinados, em última instância, pelo fato social mais essencial e mais concreto, a produção econômica da vida. O autoritarismo gerado inicialmente em defesa da Revolução (função de domínio) nunca se superou em novas formas de repesentação política que promovessem o consenso – ao contrário, matou muito perto do nascedouro as potencialidades dos conselhos populares, os sovietes, ossificando-os numa camada de dirigentes que, num sentido bem prático, restabeleceu uma espécie de classe dominante. A perspectiva do fator ideológico da hegemonia se perdeu na transição para o stalinismo, transformando o regime numa ditadura stricto sensu, exercida por supostos representantes do proletariado. Daí eu falar em supervalorização da esfera política: o Estado como aparelho de dominação substituiu o coletivismo do espírito comunista, substituiu a sociedade em todos os níveis – econômico, político e ideológico. Tornou-se incapaz de gerar novas instituições, instituições socialistas, que expressassem novos valores, baseados na solidariedade coletiva, que representassem um novo sistema. A falta de liberdade, erigida ela mesma em sistema, impedia a própria evolução do sistema. E quando se tentou abrir o sistema, ele implodiu – com uma decisiva ajuda dessa mesma “comunidade internacional” que hoje bombardeia o Oriente Médio... Não havia criado o consenso necessário à sua estabilidade.

A queda da União Soviética foi literalmente capitalizada e transformada numa vitória da ideologia do século 18, o liberalismo. Um dos seus efeitos mais nefastos foi a desestruturação generalizada das esquerdas socialistas, resultando na capitulação total de uma maioria de partidos ao reformismo a que me referi anteriormente, na divisão e enfraquecimento de outros e numa perplexidade e confusão do próprio pensamento de esquerda diante dos acontecimentos. Só não diminuiu o sofrimento da maioria da população, agora submetida a uma única superpotência policial mundial e à aliança militar dos principais países do Norte. Ao contrário, a exploração se espraiou vertical e horizontalmente, ampliando a fome - quando, paradoxalmente, pela primeira vez o mundo atingiu a autosuficência alimentar -; mantendo ou restabelecendo todas as formas de exclusão e preconceito, especialmente as de raça, gênero e cultura; acelerando, ao invés de deter, a produção de poluentes e de produtos nocivos à saúde – enquanto restringe o acesso e a pesquisa de medicamentos. Em uma palavra: destruindo o planeta e a vida que o habita.

No Brasil, em grande parte devido à prevalência de um grande partido não marxista entre as esquerdas, o patrimônio intelectual da classe operária e dos trabalhadores em geral foi muito mal compreendido, e pior copiado. Alcançando o governo em 2002, o PT – em parceria com o PCdoB – mesmo dentro das limitações de suas amplas alianças com as classes dominantes, logo aplicou a primazia da política, através do Estado, nos poderes Executivo e  Legislativo. Arremedo do processo soviético, incorporou e contratou as grandes lideranças sindicais, estabelecendo uma relação de proximidade/cooptação com as organizações classistas. Apesar de ceder setores importantes da economia à iniciativa privada, com privatizações e projetos de infraestrutura, passou a estatizar, por exemplo, todos os níveis de prática cultural: chegou a “inventar” um novo segmento da cultura, o dos Pontos de Cultura, criado com a apropriação pelo aparelho estatal das práticas de entidades variadas da sociedade civil e também com a cooptação de personalidades do meio cultural em sentido amplo. Como tenho escrito reiteradamente desde 2008, bem antes do começo da agonia, isso levou à dependência quase total e, rapidamente, ao encerramento de muitas dessas iniciativas – e o cineclubismo é um caso exemplar. Na produção cinematográfica, ao mesmo tempo que o governo estabelecia um acordo de “partilha” (90% para a MPAA[v], 10% para a produção nacional – e essa mesma em parte controlada pela entidade estadunidense) do mercado, estatizava a produção excedente, de curtas-metragens, financiando todo o processo: produção, distribuição e exibição, ainda que com inúmeras precariedades, em especial na ponta da recepção, do público. Esse modelo, como o eslavo, ruiu antes mesmo da crise política atual, mas também ajudou a derrubar o governo que, apesar – ou justamente por causa - da cooptação, não conseguiu motivar suficientemente a população e, diante do golpe, teve pouco mais que o apoio dos mesmos setores que ajudou a afastar das bases mais amplas.

Que fazer?

Vivemos um período histórico muito difícil, particularmente doloroso ao nos propor dilemas ético-políticos inéditos. Saddam Hussein era um ditador sanguinário, mas foi substituído pelo genocídio da população iraquiana; a derrubada de Muammar Gaddafi transformou a Líbia em terra arrasada; na Síria, nem os EUA, do alto de seus drones assassinos, consegue distinguir direito a quem matar. Metade do mundo árabe está em escombros, a outra metade sob ditaduras que a “comunidade” e imprensa internacionais não questionam. No Brasil, nesse quadro democrático em que “não há golpe” porque o Supremo Tribunal indiscutivelmente dele participa, temos que sair à rua para defender um governo bastante ruim, mas legítimo no quadro legal vigente, diante da perspectiva de uma situação muito pior, que agora entra em nova etapa.

O curto mandato do presidente usurpador – como já ficou claro na sua interinidade – deve, antes de mais nada, deter ou descaracterizar as investigações sobre corrupção nos meios políticos e empresariais. Depois, tem fundamentalmente dois objetivos, que afinal fundem-se num só. Primeiro: desarticular a presença e influência do PT no aparelho do Estado, tanto no plano federal como nos estados e municípios, aproveitando-se das eleições municipais, do apoio cúmplice da mídia e do enfraquecimento do próprio PT. Segundo: quebrar a institucionalidade dos grandes direitos trabalhistas – que não são uma “conquista dos últimos anos”, mas resultado de uma luta secular dos trabalhadores[vi] – e outros que entravem a apropriação dos resultados do trabalho. Os dois objetivos convergem para a viabilização de um projeto de governo para as eleições nacionais (e estaduais) de 2018, numa possível conjuntura de maior estabilidade econômica – para a qual todas as “classes produtivas”, isto é, o capital nacional e internacional, contribuirão – e sobre uma base constitucional mais legítima, ou seja, idealmente sem grandes contestações.

Que fazer diante desse quadro? Devemos ir às ruas para defender a reversão do processo e a reinstalação da presidenta deposta? Penso que esse objetivo é de difícil realização, diante da importante mobilização de grandes setores da população insatisfeitos com a gestão de Dilma Roussef e do suporte que têm por parte da imprensa, do empresariado e da grande maioria da “classe política”. Essa perspectiva levaria ao impasse e à periclitação da estabilidade social, à possibilidade de violência que, mais uma vez, só beneficiaria o recrudescimento da repressão e o avanço das medidas antipopulares. Mesmo a hipotética reinstalação de um governo que foi ardilosamente derrubado só levaria à prorrogação infinda de um período de instabilidade e ingovernabilidade. Como já foi dito, ainda que nada justifique sua remoção, esse governo também não incorpora a expectativa, nem a capacidade de uma transformação radical da sociedade.

Por outro lado, o povo não pode recuar diante da grave ameaça que se está consolidando. Não podemos deixar a coisa esfriar e ser esquecida, como se fosse possível “tocar a vida” para a frente. Porque estaremos sendo tocados para trás, perdendo nossos direitos, sujeitando-nos mais, a cada dia, sob esse novo establishment. Esquecer é ser dominado. Por isso, o objetivo imediato, a palavra de ordem para a resistência – que, dialeticamente, deve significar também avanço – tem que ser ampla - para poder ser hegemônica – e motivar não apenas os adeptos do PT, ou as esquerdas já constituídas, mas aquela grande maioria que está engolindo um Michel Temer que não quer e que deverá crescer a cada nova medida impopular do governo, nos próximos meses. A palavra de ordem deve ser, também, de simples compreensão, mas rica em significado, de forma a permitir o aprofundamento do seu sentido através da própria luta, contribuindo para o crescimento da autoconsciência popular.

Essa palavra de ordem é “Eleições Presidenciais Já!”. Sem cair na armadilha de dividir esse programa, tal como propor junto uma assembleia constituinte ou eleições para todos os cargos. O período que se abre será um momento de graves definições, de rearticulação dos setores populares, hoje extremamente divididos. Rearticulação essa que não está de forma nenhuma garantida; muito ao contrário. Também será, como disse acima, um tempo de enfrentamento e teste para as classes dominantes em vista da implantação de uma sua posição mais sólida e definitiva em 2018. A mobilização permanente, mas ao mesmo tempo objetiva, da população, é fundamental como passo inicial para a rearticulação dos liames entre povo e organizações políticas, movimentos, partidos. A pressão parlamentar da minoria de oposição deve estar vinculada a essa mobilização – e não ser vista como um fim em si mesmo, isto é, a mera armação de alianças do estilo que acaba de se mostrar errado e inútil, para não dizer oportunista. O desafio é enorme. As primeiras indicações do PT são contra a realização de eleições e a favor do esquema lulista de alianças eleitorais[vii] de vistas curtas. Mas isso é superável se houver uma clara manifestação do interesse das massas que, creio, já coincidem com a proposta de eleições já. Que, afinal, é uma tradução mobilizadora da expressão mais vaga: “Fora, Temer”.

A probabilidade de alcançar essa meta é bem pequena, dada a pouca organização da maioria da sociedade e o enfraquecimento e divisão das instituições a ela ligadas. Mas a própria luta é um exercício e um caminho para um objetivo de organização superior. Um pouco como foi a campanha das “diretas já”, derrotada num primeiro momento, mas vital no processo de derrubada da ditadura militar.

E os cineclubes?

            Se há, por paradoxo, um lado positivo nesse golpe, é que ele elimina o que possa ter restado de ilusão entre as iniciativas culturais comunitárias sobre o papel do Estado. O movimento de cineclubes entrou de cabeça nessa quimera incentivada pelo governo populista. A tal ponto que, mesmo depois da falência das chamadas “políticas públicas” para a cultura – que, para os cineclubes, duraram de 2008 a 2010 – as principais lideranças cineclubistas continuaram a mendigar os favores do governo que, no entanto, nunca mais vieram. O mais trágico disso é que várias práticas cineclubistas, fruto de sua experiência secular, se perderam quase totalmente, realimentando o processo de estiolamento do movimento. O maior dano veio da perda dos vínculos com suas comunidades, com o abandono do associativismo organizado e da sustentabilidade pelas bases – ao invés da dependência suicida do Estado. A comunidade, dessa forma, deixa de ser público auto-organizado e passa (ou volta) a ser plateia das atividades promovidas não por ela, mas para ela – por melhores que sejam as intenções beneméritas com que também se calça o inferno... Mas, como esse governo já deixou tão claro desde suas primeiras trapalhadas no campo da cultura, agora não cabe mais nenhuma ilusão.

Para os cineclubes, a possibilidade de terem uma participação significativa na resistência ao avanço da exploração da população coincide com a definição do seu papel na construção de uma sociedade justa e democrática – e na invenção de um cinema que represente e exprima as necessidades, interesses e sonhos de todos, não de alguns. A grande lição de Gramsci é que o socialismo se constrói todo o tempo, e não depois de uma tomada de poder. Que, de fato, a criação de instituições não capitalistas, superiores a estas moral e intelectualmente, constitui um dos pré-requisitos fundamentais para a construção da sociedade futura. Quando a burguesia derrubou revolucionariamente a nobreza, a maioria das instituições, e as mais eficientes, já eram burguesas. A ação política extrema, certamente indispensável – porque ninguém entrega o poder docilmente – apenas culminava a construção de uma nova ordem, já em grande parte hegemônica. Assim, a par de mobilizações de massa, de participação parlamentar, é absolutamente essencial construir e consolidar instituições em que a sociedade se organize, se represente, se expresse. Em que exercite e desenvolva a consciência de sí mesma, como indivíduos e como comunidade. Essas instituições têm que ser melhores que as instituições capitalistas, que deverão substituir, em todos os níveis: econômico, político e ideológico. Ou não sobreviverão.

Os cineclubes são esse tipo de instituição. São uma atividade econômica, mas não comercial; política, sob a forma do associativismo democrático, e ideológica por expressarem os interesses do público, não do capital. Surgiram como uma alternativa ao cinema comercial por necessidade e iniciativa do público. E estabeleceram as bases para a superação do modelo capitalista: a eliminação da divisão social do trabalho (produção-distribuição-exibição-consumo), da alienação entre criação e recepção (autor e público) e o estabelecimento do controle pelo público (associação no lugar da empresa). O cineclube é o embrião do cinema futuro, expressão de uma nova sociedade – como dizíamos nos tempos do partido cineclubista.

          Os grandes desafios do cineclubismo brasileiro (e mundial) são a reconstituição dos seus vínculos com a comunidade – abrindo-se e conseguindo construir uma ampla participação coletiva e democrática em suas comunidades e alicerçando sua sustentabilidade nessa relação – e a expansão de suas ligações com todas as outras formas de organização independente da sociedade civil, de forma a constituir não apenas uma rede, mas um verdadeiro novo tecido político-social, base de uma sociedade nova e uma nova Humanidade. Consolidar-se nas cidades sem cinema – grande maioria dos municípios brasileiros -, nos bairros das cidades maiores, nas escolas de todos os níveis, nos sindicatos e movimentos organizados, nas empresas, hospitais, quartéis, ocupações rurais e urbanas, em toda parte, fazendo da experiência coletiva do cinema um exercício, diversão e aprendizado corriqueiros da vida em comunidade – apropriando-se da riqueza e poder do audiovisual para expressar a liberdade, ao invés de projetar submissão. A sustentabilidade dos cineclubes deve vir da sociedade, e não do Estado (sem abdicar das verbas públicas, quando isso couber), através das contribuições de associados, de taxas de manutenção, da contribuição no “chapéu”, e da composição com outras iniciativas independentes, com iniciativas comuns como feiras de arte, festas comunitárias, ilustração de cursos e oficinas e tantas outras. O cineclube tem que ser “melhor” que o cinema que vai substituir, não apenas no conteúdo da programação, mas igualmente na relação com o conteúdo exibido, isto é, garantindo um conforto razoável para uma sessão de duração razoavelmente longa. Para isso deve negociar, conquistar, ocupar, os espaços comunitários – em colaboração com teatros, sindicatos, associações de bairro e outras organizações populares que possuem sedes ou espaços próprios – e públicos, muitas vezes subutilizados – como  cinemas e teatros estatais, auditórios de escolas, de bibliotecas públicas, de instituições profissionais apoiadas pelo Estado (como as de advogados, médicos, engenheiros, arquitetos, entre outros).

          Assim, de certa forma, se reconstituiria aquele nosso partido cineclubista, vocacionado para se identificar e compor com outras inciativas populares, convergindo numa grande vontade política de transformação, de libertação individual e coletiva, de preservação de toda vida e salvação do planeta. Nada mais, nada menos.

Felipe Macedo





[iii] Organização Católica Internacional de Cinema.
[iv] Este texto foi escrito entre 31 de agosto  e de setembro de 2016.
[v] Motion Pictures Association of America.
[vi] Estão sob ataque principalmente a CLT, Consolidação das Leis Trabalhistas, dos tempos de Vargas, e as atuais disposições da Previdência Social.
[vii] A Direção Nacional do PT já decidiu contra a chamada de eleições; os jornais de 1º. de agosto falam das articulações de Lula no Congresso com vistas a 2018 – e não “por um projeto de País”, como costuma alegar aquele partido.