domingo, 17 de dezembro de 2017

Science Fiction












Reflexões sexagenárias

Talvez seja o meu aniversário, que aconteceu há poucos dias; talvez seja a neve que tomou conta da paisagem que vejo da janela do meu escritório, e a noite que cai em torno de quatro horas da tarde, acabando – em mais de um sentido - com o  dia da gente. Talvez seja porque sou fã – coisa que, como estudioso de públicos, sou obrigado a admitir -, sempre fui, desde mais ou menos meus quinze anos, de ficção científica. Mas sobretudo da literatura de ficção científica, embora também goste bastante do gênero no cinema.

Bom, acho que tudo junto: a ficção me dá um sentido de precariedade da realidade, do mundo, cujos cenários estão se transformando com uma velocidade incrível, abrindo alternativas tecnológicas, base de transformações sociais que se traduzem, ou apontam, para outros quadros políticos. A idade me traz um sentimento de um certo fim de carreira, de estar numa fase da vida de conclusão e não de começo – embora, por outro lado, minha personalidade seja sempre meio imatura, meio adolescente, e eu esteja envolvido, ou iludido, meio que como sempre, com mais de um projeto. Não é, pois, um sensação depressiva, é só, ou é mais, uma constatação. Convivendo com gente jovem que estuda os meios audiovisuais, constato que o último videogame que joguei foi na rua Nestor Pestana, em 1985 acho. Hoje, os vários aspectos disso de que não faço quase ideia e de que não tenho nenhuma experiência, constituem um curso universitário, com mestrado e doutorado. É só uma constatação: ouvir a exposição de uma tese sobre esses jogos, num seminário, e não (me) identificar (com) nada ou quase nada do que está sendo dito. E outros colegas que discutem interessadíssimos termos que nunca ouvi antes, que descrevem coisas de que, afinal, também não tenho a menor ideia. Tem uma parte do que está acontecendo com o mundo de que eu, na verdade, já não participo. Como uma vez, há uns quatro anos, que um sujeito me disse que o filho dele falava no celular sobre trabalho ao mesmo tempo que lia Ulisses – ele não esclareceu se era no original. Era uma estupidez, claro, mas que se referia a um estado, uma atitude e um costume social que vêm se consolidando – a distração elevada a um grau que nem Krakauer nem Benjamim pensaram - e eu não sei aonde isso vai dar, como vai ser. Existe um novo comportamento, uma nova convivência, um outro tipo de socialização que está se delineando. E eu não vou ter tempo de participar. Olhe, não que eu quisesse. Mas queria compreender – e não sei se serei capaz, nesse espaço de tempo agora meio determinado (parece que não faz muito tempo que eu tinha todo o tempo do mundo), de compreender sem fazer parte.

          

Tenho visto matérias, repassadas no facebook, sobre bonecas sexuais robóticas. Elas são uma das pontas de lança da A.I. (inteligência artificial em inglês). Já estão maravilhosas, dizem, mas parece que vão em busca da perfeição. Quem quiser saber o que é perfeição deve lembrar ou procurar assistir Cherry 2000  (tem no Youtube, a partir de R$ 3,99), um filme de 1987 visionário (!), grande sucesso das sessões Trash do Elétrico Cineclube. Como se sabe, sexo – ou pornografia, como é no mais das vezes consumido – é o maior movimento da internet. O comércio de mulheres na chamada vida real também está entre os maiores negócios, comparável aos tráficos de armas, drogas e animais silvestres. Por isso é bem verossímil prever que os maiores avanços em robótica e A.I. se darão nos campos do sexo e da guerra – já que as drogas já são sintéticas e os animais só valem pela sua raridade e fragilidade, uma espécie de aura estética, como também dizia o Benjamin, cujo valor se constrói na razão direta da possibilidade de extinção de cada espécie. Os drones militares já são robôs não humanóides em que se está tentando aperfeiçoar a capacidade de decisão, isto é, de autonomia para decidir como, quando e quem matar. Os principais países intervencionistas, principalmente os Estados Unidos, mas também Inglaterra, França e seus muitos aliados menores, têm uma necessidade imperiosa de reduzir e controlar suas baixas para manter o controle da opinião pública internamente; o robô é uma necessidade absoluta e, por isso, em pleno desenvolvimento. Mas as matérias sobre as bonecas (que nunca falam dos bonecos ou das outras possibilidades bastante viáveis e prováveis no campo tecnocosmético) têm mostrado incríveis avanços na comunicação – mais ou menos como na tecnologia da Siri, da Apple –, nos movimentos e na reprodução das características da pele humana. Elas já podem variar de temperatura local quando estimuladas. E podem até - conforme a encomenda, claro - exigir algum foreplay sob pena de não atingirem o orgasmo, que nunca será fingido.     
         
Isso tudo vai levar ainda alguns anos, talvez uns vinte. Não poderei também participar disso. Se estiver vivo, do que duvido, precisaria estar bem gagá para procurar uma boneca dessas, tal como provavelmente seria inútil tentar fugir do robô policial se ele vier atrás de mim. O que me parece cada vez mais próximo, mais real. As bonecas e os robôs soldados são alguns dos sinais, bem visíveis, de muitas tecnologias que, na esteira da informática, de eletrônica, da miniaturização extrema, etc., já estão mudando e mudarão profundamente a paisagem social, as formas de convivência e comunicação e a estrutura dos poderes. Os veículos terrestres e aéreos (de uso civil) sem piloto; a integração, sob comando vocal, dos sistemas eletrodomésticos, de entretenimento e de segurança; a centralização e o acesso a todas as informações sobre cada cidadão, com a consequente possibilidade de controle de todos os seus movimentos (apenas se e quando necessário, claro, ou por um eventual raquer black hat). Junto com as bonecas e outros robôs, são alguns exemplos já claros do que vai ser o mundo e a vida daqui a alguns anos. Quando lembro da série Jornada nas Estrelas, que eu via nos anos 70, penso como aquele sistema portátil de comunicação parece exprimir uma imaginação limitada daquele tempo. Pensar, no final do século passado, em falar com alguém num telefone portátil, com som e imagem? Coisa de ficção científica...  Mas era uma coisa que se imaginava, de forma completamente irrealista, mas já se pensava. Os exemplos acima são muito mais concretos do que era, então essa ideia.


Some-se a isso outra constatação que prolifera nos meios de comunicação: os empregos vão acabar. Em grande parte. Metade, dizem algumas matérias, outras falam em muito mais que isso; de qualquer forma, a maioria dos empregos vai desaparecer. Em todo o planeta. Substituídos pela automação. Ora, novas profissões devem surgir, claro, mas se tudo que puder ser automatizado – e isso envolve inúmeras funções intelectuais, da tradução à seleção de quem matar num combate – for entregue a máquinas, as atividades de gestão e supervisão que vierem a existir provavelmente ocuparão um número bem menor de pessoas.

Amirável Mundo Novo

Voltando aos meus jovens colegas, outro dia uma menina do mestrado de cinema, num seminário, muito segura, afirmou que a luta de classes acabou. É preciso entender que para os canadenses (como ela) essa ideia de luta de classes não é muito familiar, nem clara. Então, como ela vê todo mundo feliz – como aqui é muito frio, além de ser um país rico, não há pobres na rua (eles morreriam congelados) – parece que o conflito social é coisa do passado. Meio bobinha ela mas, por outro lado, fora do que o conceito expressa como processo social, me pergunto como anda a luta de classes. Atualmente parece mais massacre que luta, com uma das “classes” soterrada nos escombros do Oriente Médio, no holocausto dos imigrantes do Mediterrâneo, no desmonte dos direitos do trabalho (indispensável acompanhamento da destruição de empregos) que vai do Macron e do Brexit até o Temer, passando pelo avatar hitleriano do Trump. A outra classe, a do capital, tem hoje um perfil muito claro. Não é propriamente, como dizem, constituída pelo 1% da população que detém a metade da riqueza, ou o mesmo valor que os restantes 99%. É bem menos que isso: os 2.000 bilionários existentes (0.000035% da população mundial) não apenas detêm a maior parte dos recursos econômicos da humanidade (os 8 homens mais ricos do planeta, segundo dados da Oxfam, têm a mesma renda total que metade dos habitantes da Terra), mas – o que é o fundamental – controlam as decisões sobre a totalidade desses recursos.


Dizer que controlam os recursos do planeta precisa ser melhor explicado. Esses bilionários têm sob seu controle direto um pouco mais de 10% do PIB do mundo. Como entidade, estariam em terceiro lugar, atrás dos EUA e da China. Mas eles estão espalhados pelo mundo, de forma bem próxima à distribuição geográfica proporcional da riqueza nominal: uns 700 na Ásia (400 na China, 100 na Índia, 40 na Coréia do Sul), mais de 600 nos EUA, 500 e tantos na Europa, 100 na América Latina, 35 na África. Estão em 59 países, isto é, outras quase 150 nações não tem nenhum bilionário, coitadas. Eles estão, portanto, onde importa, e com mais de 10% do PIB dos países mais importantes, evidentemente têm mais controle sobre a economia mundial do que países isoladamente - como EUA e China -, com o que a comparação não cabe. Pense num grupo que tivesse 10% ou mais das ações de todas as empresas do mundo. Ora, juntando esses bilionários com seus executivos, auxiliares diretos, além das famílias, e toda uma extensa cadeia de dependência e interesses associados distribuídos pelo mundo – e aí mesmo nos países onde não há bilionários – talvez se chegue mesmo a somar um por cento da população. No máximo. É a burguesia (um termo meio arcaico, né?), a classe dominante contemporânea. Mas imagine que dá para reunir esses dois mil caras numa sala de espetáculos não exageradamente grande. Lembro do recente congresso do partido comunista da China: reunia um número bem semelhante de delegados. E estes representavam cerca de 80 milhões de membros do partido – o equivalente, por coincidência, a esses simbólicos 1% da humanidade. É claro que esses milionários nunca se reuniriam num mesmo lugar físico – imaginou que perigo? – mas é bem provável que se reúnam, se comuniquem,  com todas essas facilidades que nem é preciso ser bilionário para se dispor hoje em dia. E podem dispor de um secretariado, um comitê central e até um politburo – além dos tais think tanks que conhecemos, que influenciam governos e outras instituições. O Fórum Mundial não seria uma espécie de congresso, só que ainda não deliberativo? Seria um delírio de ficção científica, como em 1984, no Admirável Mundo Novo e tantas outras histórias, pensar que o fato de uma coisa ser possível – e mais que isso, do ponto de vista do poder, ser necessária – basta para torná-la real? Será que com toda a concentração do poder econômico – que como sabemos, equivale a poder político, ou simplesmente poder – e com todos os recursos de comunicação existentes, a classe dominante não se organizaria, não estaria já organizada de alguma forma semelhante à descrita acima? Controlando, ou apenas sutilmente orientando decisões, direcionando os fluxos de recursos de todos os tipos: econômicos, humanos, da natureza…? Acho que quase certamente ainda não chegamos a um governo central nas sombras; divisões ideológicas pontuais, religiosas, raciais, até mesmo familiares, devem compor um jogo complicado dentro do poder de fato; mas um xadrez jogado dentro de um clube fechado, preservando não estritamente as regras, mas a exclusividade solidária entre os sócios.

Elysium ou Mad Max

Os sinais vísiveis apontam para a criação de um mundo de facilidades até há pouco tempo insuspeitas, com a maior parte do esforço físico ou intelectualmente desgastante sendo substituída pelo emprego de máquinas e por diversas formas de automação orientadas por uma inteligência artificial. Tudo isso assistido por recursos médicos altamente desenvolvidos, que asseguram melhor qualidade e maior duração da vida. É bem frustrante para mim não chegar lá. Mas, ao mesmo tempo, a incorporação de novos sistemas e tecnologias implica num grau de exclusão também inédito no campo daa força de trabalho – e acho que eu, afinal estaria nessa turma. Mantido o sistema de classes baseado no lugar que as pessoas ocupam nas relações de produção, uma parte significativa, possivelmente a maioria dos trabalhadores não terá lugar, ou apenas um espaço muito sem importância num sistema produtivo bem mais sofisticado. Simplesmente não há lugar para oito bilhões de pessoas num sistema que consuma altos níveis de energia e matérias primas ao mesmo tempo que vise produzir elevada qualidade de vida. Penso mesmo que uma parte da população ficará abaixo das máquinas na escala de valores em que a força de trabalho é mercadoria. A imagem que me vem à cabeça é a de Soylent Green, filme de 1973, com o Charlton Heston, que no Brasil recebeu o título agora mais significativo de No Mundo de 2020. Mas acho que Elysium, de 2013, em que justamente um brasileiro, Wagner Moura, faz uma mistura de bandido e herói dos excluídos (o filme tem aqueles happy endings que recuperam moralmente a humanidade), retrata melhor o quadro. A foto aí abaixo não é do filme, mas podia ser - é das ilhas de Dubai, um projeto de paraíso para os muito ricos, uma das muitas experiências desse tipo naquele lugar esquisito, entre o deserto e o mar, onde se criou um oásis de riqueza isolado do resto do mundo. Os acampamentos de refugiados no Quênia, em Bangladesh ou na Líbia são exemplos atuais que me parece anteciparem o que se reserva para o outro lado, para camadas bem mais amplas da população.


          Numa outra perspectiva, a China já está passando os Estados Unidos como potência econômica; superá-los em influência política e poder militar é uma questão de tempo, mantidas as relações internacionais atuais. Concomitantemente, os EUA investem regularmente em armamento o equivalente à soma dos dez maiores orçamentos militares de outras potências: três vezes mais que a China, segundo colocado, dez vezes mais que cada um dos outros – Rússia, Arábia Saudita, Índia, França, Inglaterra, Japão, Alemanha e Coréia do Sul. Um parênteses: o Brasil é o 13º. orçamento, mas ele é gasto quase que só em manutenção da lataria velha que são nossas forças armadas; é o único entre esses principais que atualmente não investe em tecnologias novas ou próprias. Voltando ao assunto, será que o Tio Sam vai ficar parado, olhando a China passá-lo para trás (com a Índia vindo atrás em passo acelerado)? Ou será que dá para imaginar uma situação de equilíbrio de interesses numa nova ordem planetária – ao contrário do que sempre ocorreu historicamente quando grandes potências capitalistas disputam o mercado mundial? Parece que a possibilidade de uma hecatombe é bastante grande. E próxima. Certamente uma guerra atômica seria um método eficiente de eliminar o excesso de população que constrange o modelo esboçado mais acima. O problema dessa solução é a dificuldade de controle sobre sua extensão e efeitos, que poderiam atingir eventualmente até os mais bem protegidos.

Da janela


       É isso, essas reflexões, que me ocorreram, e de forma meio irresistível me empurraram a “pô-las no papel”, com licença poética e tecnológica. Isso ocontece quando está bem frio, a neve congela a paisagem - como o texto fixa e arquiva o fluxo dos pensamentos, mas só até entrar no fluxo do leitor que o reinterpreta – a gente se sente no inverno da vida (uma imagem que não assimilo a fim, mas mais à capacidade, ou impulsão, de fixar reflexões para uso externo) e enxerga essas transitoriedades, sob influência dessa “formação” de ficção científica. 

            Mas há uma luz inigualável em Montreal, típica do inverno, que recupera todas as qualidades deste mundo congelado, o faz brilhar e, nesse mesmo fluxo de ideias, me lembra que há muitos mundos possíveis, noutras estações, neste mesmo ou em outro universo.

Montreal, 17 de dezembro de 2017.



segunda-feira, 2 de outubro de 2017


Reuni aqui os principais textos sobre o cineclubismo escritos neste século (livros incluem algumas publicações anteriores). Espero que esta bibliografia possa ser útil para estudiosos, pesquisadores e cineclubistas em geral.
Os textos indicados com (*) foram incluídos por se referirem a cineclubistas importantes ou instituições estreitamente ligadas ao cineclubismo; com (**) por tratarem da educação por meios audiovisuais e incluírem os cineclubes com destaque em seu objeto, e com (***) por, apesar de escritos em outro idioma, cuidarem diretamente do cineclubismo brasileiro e trazerem um tratamento original.
Com exceção dos livros, praticamente todos os textos podem ser encontrados na internet.

Esta listagem é certamente incompleta. Agradeço todo acréscimo ou correção. Peço que enviem qualquer comentário para felipemacedocineclubes@yahoo.com.br

Bibliografia cineclubista brasileira (2000/2017)

Livros

ARMANDO, Carlos. 2004. Os adoradores de filmes. Autentica Editora.

DUARTE, Priscila. 2017. Circuito Cineclube: trânsitos audiovisuais. Rio de Janeiro: Multifoco.

JOPLIN, Cristiane, PEREIRA, Leonardo e RAISSA, Nathana. 2015. Bixiga, o cineclube que mudou tudo. (e-book)

LEÃO, Beto. 2010. Centenário do cinema em Goiás. Goiânia: Kelps.

_________ e BENFICA, Eduardo. s/d. Goiás no século do cinema. Mnemocine.

LUNARDELI, Fatimarlei. 2000. Quando éramos jovens, história do clube de  cinema de Porto Alegre. Porto Alegre, UFRGS/Secretaria Municipal de Cultura.

MACEDO, Felipe. 1982 Movimento cineclubista brasileiro. São Paulo: Cineclube da FATEC.

MATELA, Rose Clair. 2008. Cineclubismo: memórias dos anos de chumbo. Rio de Janeiro: Editora Multifoco.

RIBEIRO, José Américo. 1997. O Cinema em Belo Horizonte: do cineclubismo à produção  cinematográfica na década de 60. Belo Horizonte, Editora UFMG.

(*) SOUZA, José Inácio de Melo. 2002. Paulo Emílio no Paraíso. São Paulo: Record.
  
XAVIER, Ismail Norberto. 1978. Sétima arte: um culto moderno. São Paulo: Perspectiva.  

Livros (coletâneas)

ALVES, Giovanni. 2006, 2008, 2010. Trabalho e Cinema – O mundo do trabalho através do cinema (3 vol.). Bauru: Praxis

ALVES, Giovanni e MACEDO, Felipe (Org.). 2010. Cineclube, Cinema & Educação. Bauru: Praxis.

COUTINHO, Mário Alves e GOMES, Paulo Augusto (Org.). 2001. Presença do Cec: 50 anos de cinema em Belo Horizonte. Belo Horizonte: Crisalida.

MARQUES, Nelson, MARCHI, Gianfranco e HAMMER, Rodrigo (Org.). 2010. 80 cult movies essenciais. Natal: EDUFRN

SANTOS, José Alex Soares, SILVA, Antonio Valricélio Linhares e LUSTOSA, Francisca Geny (Org.). 2012. Cinema e teatro como experiências inovadoras e formativas na educação. Fortaleza: EdUECE.

Teses de doutorado

COSTA JR, Helio Moreira. 2015. O onírico acorrentado: o movimento cineclubista brasileiro (do engajamento estético à resistência política – 1928-1988). Universidade de São Paulo.

(**) MOGADOURO. Cláudia de Almeida. 2011. Educomunicação e escola: o cinema como mediação possível (desafios, práticas e proposta). USP

MUNDIM, Luiz Felipe. 2016. O público organizado para a luta. O Cinema do Povo na França e a resistência do movimento operário ao cinema comercial (1895-1915). UFRGS/Universidade de Paris 1.

(*) SOUZA, Carlos Roberto. 2009. A Cinemateca Brasileira e a preservação de filmes no Brasil. USP.

(**) TOLEDO, Moira. 2010. Educação audiovisual popular no Brasil. Panorama 1990-2009. USP.

Dissertações de mestrado

CAMPOS, Marina da Costa. 2014. O Cineclube Antônio das Mortes: trajetória, exibição e produção (1977-1987). UFSCAR

CAZÉ, Barbara Maia Cerqueira. 2015. Os usos e os atravessamentos do cineclube (e do cinema) na tessitura dos currículos em redes nos cotidianos. UFES

CHAVES, Geovano Moreira. 2010. Para além do cinema: o cineclubismo de Belo Horizonte (1947-1964). UFMG.

CORREIA JR., Fausto Douglas. 2007. Cinematecas e cineclubes: cinema e política no projeto da Cinemateca Brasileira (1952-1973). UNESP.

GONÇALVES, Beatriz Moreira de Azevedo Porto. 2013. Cinema, educação e o Cineclube nas Escolas: uma experiência na Rede Pública do Sistema Municipal de Ensino do Rio de Janeiro. UERJ.

LOURENÇO, Júlio César. 2010. A contribuição da atividade cineclubística do Chaplin Club (1928-1931) para a maturidade da crítica cinematográfica brasileira. Universidade Estadual de Maringá.

(***) MACEDO, Felipe. 2017. Le cinéclub comme institution du public : propositions pour une nouvelle histoire. Universidade de Montreal.
MALUSÁ, Vivian. 2007. Católicos e cinema na capital paulista : o cineclube do Centro Dom Vital e a Escola Superior de Cinema de São Luis (1958-1972). UNICAMP

POUGY, Alice. 1996. A Cinemateca do MAM e os cineclubes do Rio de Janeiro: formação de uma cultura cinematográfica na cidade. PUC-RJ

(**) SÁ, Sáskia. 2008. A narração de sí como fabulação da diferença em objetos audiovisuais: uma experiência em educação não escolar através da produção de auto-documentários. UFES.

SALES, Priscilla Constantino. 2016. Cultura e política na Unesp de Assis: um olhar sobre as práticas cineclubistas (1960-1980). UNESP

SILVA, Eduardo Lima. 2014. Campo do cineclubismo brasileiro: uma análise dos interesses em jogo no período de rearticulação do movimento cineclubista. UFRGS.

SILVA, Francine Nunes. 2011. Prática do dizer, prática do fazer: cineclubismo, imagens e política. UFSM

SILVA, Priscilla Duarte. 2012. Circuito cineclube: trânsitos audiovisuais. UERJ

ZANATTO, Rafael Moratp. 2013. Luzes e sombras: Paulo Emílio Salles Gomes e a cultura cinematográfica. UNESP

Capítulos de livros

LISBOA, Fátima Sebastiana Gomes. 2011. “O cineclubismo na América Latina: ideias sobre o projeto civilizador do movimento francês no Brasil e na Argentina (1940-1970)”, in CAPELLATO, Maria Helena et all. História e Cinema. São Paulo: Alameda

MACEDO, Felipe. 2008. “O Modelo Brasileiro de Cinema: um estrangeiro em nossas telas”. In MORAES, G.  (org.). O cinema de amanhã. Brasília: Congresso Brasileiro de Cinema/Coalizão Brasileira  pela Diversidade Cultural.

(***) _________  2016. « Naissance des cinéclubs au Brésil: le rôle de l’oralité dans le développement des formes d’organisation du public ». In: LACASSE, Germain et all. Dialogues avec le cinéma – approches interdisciplinaires de l’oralité cinématographique. Montreal: Nota Bene

MALUSÁ, Vivian. 2007. “O Cineclube do Centro Dom Vital: Católicos e cinema na capital paulista”. In:  MCHADO JR., Rubens; SOARES, Rosana de; ARAÚJO, Luciana Corrêa de. (orgs.) Estudos de  Cinema Socine, VIII. São Paulo: Annablume.

PIMENTEL NETO, João Baptista. 2008. “Cineclubes: uma rede em defesa dos Direitos do Público”. In:  MORAES, Geraldo (org.) O Cinema de Amanhã. Brasília: Congresso Brasileiro de Cinema;  Coalização Brasileira pela Diversidade Cultural.  

Artigos acadêmicos e comunicações

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BALDINI, Juliana Previatto e BALDI, Mariana. 2013. Cine Mais Cultura e Cineclubismo: implicações na rede do Rio Grande do Sul. XXXVII Encontro da ANPAD.

BRUM, Rosemary Fritsch e CARVALHO JR, Francisco. 2009. A sensibilidade fílmica: uma cartografia da memória do clube de cinema de Porto Alegre (1960-1970). Revista de História e Estudos Gerais, v. 6, no. 1 – janeiro, fevereiro, março.

BUTRUCE, Débora. 2003. Cineclubismo no Brasil – esboço de uma história. Revista Acervo, v. 16, no. 1 – janeiro-junho.

CAMPOS, Marina da Costa. 2013. A trajetória do cineclube Antonio das Mortes no contexto cineclubista brasileiro. 9º. Encontro Nacional de História da Mídia.

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CARNEIRO, Eva Dayna Felix. 2012. Notas sobre a recepção cinematográfica na Amazônia atrtavés de “Os Espectadores”. 2º. Encontro Regional Norte de História da Mídia e II Seminário de História, Cultura e Meios de Comunicação na Amazônia.

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SILVA, Alexandre Matias e ROCHA, Danilo. 2017. Cineclube, filosofia e educação: o filme como fator de educação do pensamento. Revista Livre de Cinema, v. 4, no Especial, julho.

SILVA, Veruska Anacirema Santos. 2009. Cinema e cineclubismo como processos de significação social. Domínios da Imagem, v. II, no. 4.

SOARES, Sérgio Ricardo e SOUZA, Anderson. 2012. Natividade autorepresentada na tela – relatos de uma oficina de cinema no interior do Tocantins. Revista Extensão (UNITAU), no.1.

SOUZA, Allan Rocha. s/d. A proteção do audiovisual e o cineclubismo: o caso do cineclube Falcatrua. Sem outras referências

Neste blogue

Consulta pública – abril de 2009
Hegemonia e cineclube – maio de 2009
Viagem à Tunísia – Cineclubismo na Tunísia – agosto de 2009
Demissão – agosto de 2009
Cinema nas escolas, cinemateca, salas de exibição – maio de 2010
Consulta pública, apoio contextualizado – julho de 2010
Sistema do Sistema – julho de 2010
Tarefas dos cineclubes brasileiros na mudança do modelo de cinema – julho de 2010
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Cem anos de cineclubismo – julho de 2013
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O cinema do público – dezembro de 2016
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Textões e cineclubismo (ou literatura e cultura cineclubista) – setembro de 2017
Bibliografia cineclubista brasileira – outubro de 2017


quarta-feira, 27 de setembro de 2017


Textões e cineclubismo
(ou literatura e cultura cineclubista)

Na sequência da publicação de mais um artigo em meu blogue – e divulgação na lista nacional dos cineclubes – um velho amigo cineclubista me escreveu, debatendo alguns aspectos do texto. Seguiram-se algumas mensagens, como sempre, com argumentos e ideias, daqui e de lá. Comentei que achava que devíamos fazer esse debate de forma aberta, e ele me respondeu que achava que tinha pouco interesse, pois as pessoas estavam vendo o cineclubismo mais como um aspecto meio superado, um departamento muito específico de questões maiores, como as de gênero, religião ou mesmo do cinema brasileiro. E acrescentou também: “recebi uma mensagem privada dizendo que mensagens longas e "intelectualizadas" não serviam para nada a não ser deleite intelectual e estéril do autor das mesmas...” Daí, portanto, o textão.

Embora, evidentemente, não exista uma exegese mais precisa do textão – já que a ideia mesma repele a reflexão e apela para o senso comum – acho que podemos reconhecer que qualquer coisa que ultrapasse dois parágrafos, chegue perto do fim da página é, definitivamente, um textão. Então, vamos a ele, pelo menos no que se refere ao cineclubismo.

A ideologia do textículo

Citei essa associação: falta de interesse do cineclubismo e inutilidade de reflexões mais longas porque, ao contrário do meu amigo, acho que não são uma coisa de agora, dos últimos tempos ou dos novos tempos, mas uma velhíssima tendência obscurantista, anti-intelectual (intelectual no sentido de uso do intelecto, da inteligência, da reflexão). O fenômeno é bastante geral e recorrente, e manifesta-se de mil maneiras em formulações reacionárias ou populistas, que promovem a compreensão do mundo e das coisas em ideias simples e sem nuances. Curto e grosso. Geralmente estão associados ao racismo, ao preconceito, ao nacionalismo e à xenofobia: nós contra eles. Não são estranhas a uma polarização maniqueísta, burra mesmo, que muitos reconhecem atualmente nas chamadas redes sociais na internet.

Tais ideas procuram separar as abstrações do “intelectual” e do “homem comum”, restringindo este último a um espaço edênico de ignorância e felicidade determinadas pela Natureza ou pelo Criador. Ou, sob outro entendimento, mantendo-o nos limites da ignorância e da exploração por terceiros. Além de velha, essa ideia, que é também prática de solapa social, é bem generalizada. Hoje em dia, certamente se aproveita de alguns instrumentos da indústria de comunicação, como o twitter - e seu limite de mensagens de 140 caracteres (que estão pensando em mudar) - ou o instagram, que privilegia as imagens. Mas não sejamos reducionistas também aqui: esses mesmos meios servem para ampliar o universo de pessoas que se manifestam pela escrita e que, possivelmente, poderão acessar outros mecanismos e ambientes, explorando e se manifestando de formas mais elaboradas.

Ideias expressas de forma simples e curta, como quaisquer outras, têm sua função social disputada na arena da luta de classes: podem ser úteis para a emancipação ou para a domesticação; reduzir sempre as ideias, no entanto, a fórmulas simplificadas, aponta para a rasteirização, a ingenuidade, a subordinação – que propiciam o abuso. O slogan, por exemplo, termo sem correspondente em português, tem origem em formas de identificação clânica, militar (a palavra vem do gaélico e irlandês sluagh-ghairm  -sluagh "grupo armado” e gairm "grito"). É uma forma mnemônica simples que serve para angariar, arregimentar ou para controlar massas, plateias, para projetos também curtos e grossos, como toda a publicidade moderna, mas igualmente o facismo que, aliás, tem parentesco próximo com ela. Enfim, como todos sabem, a capacidade de interpretar um texto complexo é o parâmetro usado para medir o analfabetismo funcional – ou incapacidade de se situar e desfrutar plenamente do universo comunicacional social. O analfabetismo funcional atinge um percentual significativo dos povos: no Brasil, quase um terço da população; nos EUA, um quinto, e nos países nórdicos, um décimo.  O tema é vasto e merece uma reflexão mais ampla, mas meu textão aqui visa localizar essa questão no cineclubismo brasileiro.

A mensagem privada, que meu amigo não identificou, nem eu perguntei, lembrou-me algumas referências esparsas no facebook – que não raro funciona como ventilador de matérias fecais – mas em particular uma campanha contra textões estranhamente associada à divulgação de um desses circuitos de exibição que alguns produtores  andam organizando através de cineclubes. Eu disse “estranhamente associada” porque realmente uma coisa – textos extensos – não tem, em princípio, nada a ver com a outra: a organização de um circuito de exibição. Acredito que os promotores dessa associação já estivessem preocupados anteriormente com os tais textões, de forma que a mistura de uma coisa e outra meio que veio para demonstrar que uma iniciativa como aquela, do circuito, podia ser realizada sem um grande texto para ampará-la. Grande demonstração lógica: mostraram que era possível lançar um filme sem grandes temas, apenas com um sistema de inscrição de cineclubes numa lista ou sistema. Os circuitos comerciais fazem a mesma coisa toda semana, também sem grandes textos – no máximo umas imagens na tevê. E fazem isso há mais de um século. Isso me lembra a formação do circuito Cine+Cultura, há poucos anos, quando se combateu – e se acabou por eliminar – as atividades de formação, como o Manual do Cineclube e as oficinas, em favor dos aspectos funcionais do circuito de exibição formado pelos cines+.

Bom, muito cá entre nós (que ninguém nos leia!), acho que a mensagem privada enviada ao meu amigo e a campanha contra os textões têm a mesma origem, e acho que a identifico bem. Afinal, neste nosso meio cineclubista, não são muitos os textões, não é mesmo? E talvez sua autoria seja fácil de identificar. Em outras palavras, identificar os textões com uma pessoa. Ora, inversamente, os que insistem em combater esse autor passam também a ser provavelmente identificados sem dificuldade. Contribui ainda, para isso, o fato de que muitos outros cineclubistas já me falaram sobre recados privados que receberam para evitar o referido autor... de textões. Por isso, nem precisei perguntar. Bem, a esta altura, quantos leitores já entenderam tudo? Ah, e entre esses leitores com certeza estão os que fazem campanha contra textões: eles são dos primeiros a lê-los.

Bom, eu me identificaria como um autor de textões, se adotasse essa visão anti-intelectual. Mas não. Não meço minhas reflexões, como não pretendo medir meus leitores. Escrevo sobre cineclubismo desde meus 20 anos, nos anos 70, quando a maioria dos meus leitores ainda não tinha nascido (mas nem todos). Aprendi desde logo a escrever em diferentes registros, pois também tirei boa parte meu sustento, esses anos todos, da escrita: jornalística, de propaganda, mais recentemente, acadêmica; mas sempre, paralelamemte, militante e cineclubista. Os textos a que me refiro aqui, então, são estes últimos. Militantes, porque são os escritos voltados não para o público dos cineclubes (o que também faço muito), mas para os cineclubistas militantes, já bem comprometidos com o cineclubismo, ou para dirigentes de cineclubes. São textos em que procuro passar minha própria experiência, recuperar a memória da experiência histórica cineclubista, avançar proposições ou analisar e criticar posturas de que discordo. Textos que têm uma forma despretensiosa de pretensão: a de suscitar questionamentos, reflexões, que possam animar, transformar, enriquecer a prática dos cineclubes. Nada disso se faz de forma superficial ou breve. Só de ma fé - com a intenção de neutralizar as idéias sem efetivamente considerá-las - ou com o preconceito de que os cineclubistas não são, de alguma forma, capazes, é que se imagina que isso não interessa aos cineclubistas.

Cineclubismo e literatura

Na verdade, o cineclubismo é muito próximo da literatura, da cultura escrita. Nosso companheiro estudioso do cinema e do cineclubismo, Gabriel Álvarez Rodríguez, sempre destaca a relação entre o cineclubismo, a escrita e as publicações, explorando, por exemplo, a influencia da Gaceta Literária espanhola, nos anos 20, sobre os primeiros cineclubes hispânicos[i]. Como se preciso fosse lembrar que ainda muitos repetem que o cineclubismo surgiu com a revista Ciné-Club, de Louis Delluc, e tantas que se seguiram – como destaca Christophe Gautier em seu formidável La Passion du Cinéma[ii]. No Brasil, Diogo Gomes dos Santos identifica as origens mais remotas do cineclubismo com a Turma do Paredão[iii], que logo se espalharia pelas colunas de cinema de diferentes revistas, para voltar a se reunir em Cinearte. Mas e O Fã, primeira revista realmente de crítica cinematográfica, na realidade o boletim do Chaplin Club? E, se não bastasse a proximidade ou origem dos fundadores do Clube de Cinema de São Paulo com a revista Clima, poderíamos lembrar como o cineclubismo dos anos seguintes esteve diretamente ligado à propagação da crítica e de uma literatura de cinema em todas as regiões do País. Se considerarmos a cultura cinematográfica brasileira no sentido de um acervo de expressão literária – que certamente é uma de suas dimensões, ainda que eu pense que não a única e nem mesmo a principal – os cineclubes fazem parte substancial de sua origem e disseminação. A quase totalidade dos movimentos renovadores na história do cinema surgiu dos ambientes cineclubistas e da reflexão escrita, publicada em livros e revistas – especialmente em publicações cineclubistas. O cineclubismo não está apenas associado à criação de uma crítica moderna – basta lembrar André Bazin (em seus ensaios e nos Cahiers du cinéma) ou Paulo Emílio Salles Gomes n’O Estado de São Paulo – mas igualmente encontra-se na origem dos cursos universitários de cinema em todos os países. E isso é apenas um sobrevoo rápido; falar mais em profundidade sobre literatura cineclubista é assunto para outro texto. Que virá.

A militância nunca esteve longe dessa literatura, seja na defesa sistemática de novas abordagens do cinema, geralmente ligadas à valorização do público (mesmo se, muitas vezes, de forma paternalista), seja no embate direto com outras vertentes do cinema ou do próprio cineclubismo. No caso do Brasil, podemos lembrar a defesa dos valores do cinema mudo pelo Chaplin Club, nas páginas de O Fã – de resto como se dava um pouco em toda parte com o advento do filme sonoro. Mas também a discussão entre cineclubes católicos – com abundante literatura - e laicos, que marcou os anos 50 e a criação das entidades regionais e nacional dos cineclubes. Nos anos 70, em que eu já participava, os cineclubes mantinham uma extensa literatura, dos boletins de cada entidade às publicações do CNC, onde se debatiam desde propostas de gestão da Dinafilme até concepções do mundo, passando, naturalmente, pelas análises de filmes. Vários cineclubistas, de ambos os lados da celeuma, eram bem conhecidos na época. Digladiavam-se em torno de idéias como a do nacional-popular de Gramsci contra o internacionalismo proletário encarnado em Trotski. Essas ideias serviam para embasar a defesa do cinema brasileiro, por um lado (e a exibição de filmes de Mazzaropi, por exemplo), e um cinema revolucionário puro, geralmente identificado com os clássicos do cinema soviético. Influíam no cotidiano do movimento, por exemplo na montagem e seleção de acervos regionais de filmes para distribuição da Dinafilme. Nessa época o Cineclube da Fatec publicou meu primeiro texto realmente grande: um modesto livreto de umas 80 páginas com a primeira história do cineclubismo no Brasil[iv]. Não creio que exista uma relação tão direta, mas é certamente uma associação que me ocorre, lembrar que a decadência e morte do cineclubismo organizado, naquela época, foram acompanhadas também de uma onda anti-intelectual, contrária a debates, e do fim das publicações em geral a partir da metade da década de 80.

Hoje

Meus amigos estranham que eu escreva tanto sobre cineclubismo. Ou mais especificamente para cineclubistas, ainda mais agora que estou inserido numa respeitável instituição acadêmica que me cobra textos alinhados aos seus cânones. Pouca gente – nem o amigo missivista que citei – acredita que esses textos sejam lidos. Como inegavelmente o movimento cineclubista no Brasil – e no resto do mundo – anda meio irrelevante socialmente, isto é, não tem participação nem manifesta posição em qualquer questão importante da sociedade ou da cultura, muitos associam essa “invisibilidade” com a inexistência do movimento social e cultural que é o cineclubismo.

É da lógica das instituições hegemônicas – de que se contaminam as opiniões privadas, que hoje se irradiam acriticamente, de forma simples e tosca, pelas chamadas redes sociais, colocando a noção de senso comum de Gramsci num outro patamar – selecionar ideologicamente o que deve ser divulgado e promovido, tal como o que precisa ser censurado e obliterado. Raramente os cineclubes superaram essa barreira e, quando o fizeram, expressavam geralmente posturas elitistas e conservadoras. No entanto, desde que existe o cinema, os cineclubes nunca deixaram de, senão produzir, ao menos ajudar a colocar em circulação, além de filmes, ideias e propostas para o avanço do público e da sociedade. Embora, ao contrário das definições correntes de cultura e tradição popular, geralmente identificadas com as formas orais, o cineclubismo, evidentemente, se reconheça no cinema e no audiovisual (e, como mostrei acima, também bastante na literatura), tal como a sabedoria popular, este elabora, transmite e reproduz uma cultura própria, fora dos ambientes e práticas dominantes.

Em outras palavras: os cineclubistas estão lendo e escrevendo – e penso que, quantitativamente, atualmente mais que em qualquer outro momento histórico, pelo menos no Brasil. Em minha experiência pessoal, frequentemente sou procurado por estudantes e pesquisadores de todas as regiões do País envolvidos com trabalhos e pesquisas sobre o nosso campo e trabalho. Meu blogue é acessado de dez a vinte vezes por dia em média e, em 8 anos, foi visto por quase 23 mil leitores. Não é muito, se comparado à Lady Gaga ou a certos gatinhos engraçadinhos mas, considerada a complexidade da leitura, é um número respeitável. Poucos filmes brasileiros tiveram esse público nos últimos anos. A média de acessos salta para números bem mais elevados quando “lanço” algum texto novo e o anuncio no facebook ou na lista de discussão dos cineclubes. Também em outros espaços de intercâmbio de textos, como o Academia.edu ou motores de busca, como Google Scholar, mais acadêmicos, tenho tido acessos sistemáticos e mais citações do que eu imaginava. A lista tradicional de comunicação entre cineclubistas, cncdialogo@yahoogrupos.com.br, de 2004 até hoje teve um tráfego de mais de 37 mil mensagens. Mesmo que uma pequena percentagem delas se constitua de debates, também somam muitos milhares. A lista mantém estável um número de assinantes sempre em torno de 1.200 pessoas: não são leitores de palavras cruzadas, mas gente interessada, quase sempre envolvida de alguma forma com uma prática cultural organizada em torno do audiovisual. E isso sem contar outras listas, como as criadas durante as oficinas do programa Cine+Cultura, com muitas centenas de participantes, cujo acesso e avaliação foram apropriados indevidamente e privatizados por um certo grupo.

Mas o melhor indicador para essa produção intelectual é o número de trabalhos acadêmicos: algumas teses de doutorado, várias dissertações de mestrado, incontáveis artigos em revistas universitárias e capítulos de livros coletivos, bem como apresentações em colóquios, a que se somam os trabalhos de conclusão de curso e, last but not least, os textões deste escriba, que fogem um pouco desses formatos mais institucionais, ainda que os pratique de quando em vez. Com extensão mais variada e profundidade idem - já que muitos voltam-se apenas para a divulgação – há ainda um número significativo de blogues e “páginas” de cineclubes e práticas congêneres. Acredito que nunca se escreveu tanto sobre cineclubismo como se faz atualmente – neste século – no Brasil. Penso também que esse fenômeno é possivelmente exclusivo do nosso País, embora haja muitos trabalhos em outros idomas, de outros países, mas em nenhum caso com o volume e a concentração que se vê nesse período em nossa terra.

É curioso que essa atividade se faça, de certa forma, “fora” do movimento cineclubista, restrita aos meios de divulgação institucional do ambiente acadêmico e sem influenciar, aparentemente, as escolhas políticas que se apresentam hoje para os cineclubes brasileiros. Creio que isso se explica em parte pela especialização elitista que caracteriza em boa medida – e também atrapalha bastante seu próprio  desenvolvimento – a produção acadêmica. O isolamento dessa produção confirma a dissociação da maioria dos autores das atividades cineclubistas propriamente ditas, já que geralmente não há “vulgarizações” desses textos. Mas, seguindo o cânone acadêmico, cada vez mais esses textos dialogam entre sí, isto é, são citados reciprocamente. O que já é muito positivo.

Mais importante, porém, me parece o fato de que essa produção está refletindo um impacto do cineclubismo na história e na sociedade brasileiras, que começa a ser reconhecido, a “existir” institucionalmente, a partir desses textos. Consequentemente,  de alguma forma essa reflexão deverá retornar para o movimento, alterar e enriquecer seu nível de autoconsciência; indispensável, por sua vez, para que os cineclubes voltem a ter um papel na sociedade. De fato, assim como é parte do éthos cineclubista a abolição do espaço hierárquico entre a obra cinematográfica e o público, também precisamos, diante dessa produção acadêmica sobre o cineclubismo, promover a sua apropriação pelo público. Isto é, apropriar-se desses textos e reinformá-los, estabelecer o diálogo entre eles e a prática cineclubista. Pretendo consolidar em breve uma primeira listagem desses trabalhos para acesso dos interessados. De qualquer forma, num momento que penso ser de indiscutível refluxo enquanto movimento organizado, o cineclubismo brasileiro parece estar refletindo e acumulando forças para um possível retorno amadurecido.

Por isso mesmo é fundamental denunciar e combater os obscurantistas, os anti-intelectuais que, depois de terem contribuído fortemente para o recuo do movimento, não satisfeitos, perseguem qualquer sinal de vida e inteligência que, independentemente dessas insídias, continuam a germinar e florescer nos interstícios do cineclubismo, na consciência do público.

Felipe Macedo

Setembro de 2017, em Montreal.




[i] ÁLVAREZ, Gabriel Rodríguez. S.d. Contemporaneos y el Cineclub Mexicano: Revistas y cine clubes, la experiencia mexicana. México : Universidade Nacional Autônoma do México.
[ii] GAUTIER, Christophe. 1999. La passion du cinéma. Cinéphiles, ciné-clubs et salles spécialisées à Paris de 1920 à 1929. Paris : AFRHC
[iii] Diogo Gomes dos Santos escreve em http://diogo-dossantos.blogspot.ca/. A turma do Paredão era a alcunha do grupo que reunia Adhemar Gonzaga, Álvaro Rocha, Paulo Vanderley, Luís Aranha, Hercolino Cascardo e Pedro Lima.
[iv] MACEDO, Felipe. 1982. O Movimento Cineclubista Brasileiro. São Paulo: Cineclube da FATEC.