quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Corrupção

Como problema ético, a corrupção fica na fronteira da psicologia e da cultura, do indivíduo e do coletivo. Acredito que o primeiro, o sujeito tomado isoladamente, se molda de forma autônoma no caldo de cultura do ambiente social. Todos têm escolha, mas o bandido pobre é impulsionado pela necessidade; o assaltante rico, pela oportunidade. A corrupção é uma forma de roubo, também pode ser compreendida como a apropriação privada - individual ou organizada – de bens ou direitos coletivos. Resquício de formas primitivas de sobrevivência, ela se incorpora de diversas formas e em diferentes níveis nas culturas das nações e, até certo ponto, da Humanidade.

Numa simplificação esquemática – como se requer nestas redes privadas mas ditas sociais – podemos citar o exemplo da incorporação à moralidade institucional dos países mais desenvolvidos economicamente dos salários e benefícios tidos como aceitáveis para executivos, na ordem dos milhões, dezenas e até centenas de milhões (em qualquer moeda forte) anuais e sua tributação diferenciada. Nativos desses mesmos países se chocam com os hábitos de propinas de 1, 2, 10 dólares necessários a cada passo de uma demanda burocrática – liberar um produto na alfândega, obter um certificado ou autorização – ou de pequenos serviços, em certos países da África, por exemplo.

No Brasil reunimos o pior desses dois mundos. Herdeiros do Estado patrimonial deixado pelos portugueses (ou até pelos visigodos e romanos, como dizia Raymundo Faoro), com predominância de estamentos produtores e controladores de uma gigantesca burocracia, vivemos num paraíso de regras e dificuldades que apelam para soluções “inventivas” e jeitinhos extracurriculares. A enormidade de cargos públicos[i], o volume de regras extensas e gongóricas, a extrema hierarquização e morosidade do controle juciário, aliados a um éthos de privilégios e exceções elitistas, introduz aquela pequena corrupção como fator de igualdade e até de sobrevivência entre a massa de excluídos do sistema produtivo dominante, e a adapta para os escalões da burocracia estatal, nos poderes executivo, legislativo e judiciário. Ao mesmo tempo, o restante da classe dominante – na indústra, no agronegócio, nas finanças – dispõe e usufrui, ainda que em escala proporcional à sua própria grandeza relativa, dos dispositivos de desigualdade de padrão desenvolvido. Ou bônus sem ônus.

Toda corrupção é nociva mas, evidentemente, os milhões de dólares pagos como salário e bônus ao executivo de uma grande corporação ou como propina para o deputado, prefeito ou ministro (entre outros) têm um peso social muito diferente dos 10 ou 20 reais dados ao flanelinha que se apropria do espaço público ou do trocado entregue ao vendedor de balas, provavelmente roubadas, no sinal fechado. Quantias enormes subtraídas direta ou indiretamente do patrimônio público pesam realmente nos orçamentos sociais: tiram dinheiro dos investimentos em transporte, defesa, educação, de tudo um pouco. Ou um pouco mais que um pouco. No caso da saúde, por exemplo, o dinheiro ou a falta dele representam vacinas, remédios, tratamentos. Pessoas morrem ou ficam inabilitadas por toda a vida por causa dos fluxos invisíveis desses recursos. Na China existe a pena de morte para os crimes contra a economia popular. No Brasil, tal como o inconsequente maconheiro ou o ocasional consumidor de cocaína não sentem nenhuma responsabilidade sobre o estabelecimento do poder do crime organizado nas comunidades populares, na “criação de empregos” no tráfego e no crime em geral para crianças e adolescentes mais pobres, os políticos, empresários, autoridades judiciais e religiosas também parecem – ou aparentam – não ver relação entre as nebulosas operações financeiras e políticas de que participam e as incontáveis mazelas que afligem nosso País. Não, essa corrupção “de rico” é realmente um crime muito grave.

Qualquer cidadão minimamento informado – e não são tantos assim - sabe que a quase totalidade dos partidos nacionais com representação parlamentar é corrupta, nos termos acima descritos. Mais que isso, a corrupção é a razão principal da existência de muitos partidos – em número, a maioria das siglas – que existem apenas para receber recursos públicos e negociar votos e espaços midiáticos, também públicos. Os partidos mais à esquerda foram, durante muito tempo, exceção a essa “regra”, mas muitos perderam essa característica já lá se vão muitos anos. Para parlamentares evangélicos, qualquer ação se justifica por estar ao serviço do Senhor (como ateu, essa ideia é para mim um mistério: será um deus qualquer ou aquele senhor que manda na igreja?), para alguns mais à esquerda, a moralidade estaria nos altos desígnios sociais que sua organização – e eventulamente sua generosa pessoa – são as únicas a poder assegurar. Para a maioria, em todos os casos, é mesmo uma picaretagem, tipo uma sujeirinha que deve ir para debaixo do tapete. PT, PMDB, PSDB, PSD, PP, PR, PSB, PTB, DEM, PRB – para citar, em ordem decrescente, apenas as dez maiores bancadas da Câmara federal – estão todos igualmente imersos nessa cultura de corrupção[ii].

Na China, muitos desses deputados seriam fuzilados – e isso estaria de acordo com a consciência cívica que por lá se promove, diante, inclusive, de um grau elevado de corrupção, em parte beneficiado pela opacidade do governo e por outros atavismos culturais. Os brasileiros somos mais tranquilos quanto a isso, aqui só executamos corruptos (e mesmo alguns desafetos) em sonho ou na internet. A corrupção é percebida socialmente – e promovida pelos poderosos, muitos deles corruptos - como falta menor. Assim, o tratamento da corrupção em termos políticos e mediáticos tem sempre sido relativizado, abrandado, abafado – agora também por grande parte da esquerda. Mas em certas ocasiões, acontece o contrário. Os governos e instituições com presença ou influência progressista são atacados justamente pelos focos centrais da corrupção por... corrupção. A pecha da corrupção é das mais produtivas calúnias: mesmo – ou especialmente no caso de – não haver provas, ela se insinua e cola no difamado, de forma parecida com as insinuações sobre sexualidade perversa. O ato de denunciar já funciona como demonstração: “onde há fumaça, há fogo”. Virou um fator meio clássico na desestabilização política e social no Brasil. Essa era a marca da UDN, partido conservador que existiu entre 1945 e o Golpe Militar de 1964, de que foi a principal base político-institucional. O PMDB – e toda uma coorte de políticos indiciados e condenados de outros partidos – reinterpreta a farsa da UDN meio século depois. E, para distrair o público de seus próprios crimes, apresenta os do PT (com quem aqueles mesmos políticos articularam e prevaricaram à farta) como únicos e especialmente danosos.

A manobra é diabólica, audaciosa, impudente mesmo. E brilhante, diante da posição em que coloca os setores progressistas da população brasileira. A traição dos antigos aliados do PT na corrupção se traveste de movimento ético-político para justificar o aniquilamento do ex-aliado e legitimar o ataque inédito aos direitos sociais. Se não formos capazes de uma mobilização que esclareça essa situação, é bem provável que o plano golpista dê certo. Mas boa parte dos setores mais organizados da oposição ao golpe estão ou foram ligados ao governo derrubado e não conseguem superar essa ligação. A relativa injustiça (por ele ser tomado como bode expiatório) que se comete contra o grande líder desse segmento, Lula, obriga seus antigos apoiadores a defendê-lo como centro da questão política – e, dessa forma, a estreitarem a base de resistência ao golpe, confundindo os interesses e direitos da maioria da popúlação com o projeto político partidário que a maioria da população não apóia. Confundem PT e direitos sociais, Lula e democracia. Mobilizam a rua não contra o golpe e as classes dominantes corrompidas até a medula, mas são obrigados, até certo ponto, a fazê-lo sob as bandeiras do PT e de setores a ele ligados, empunhando imagens de Lula e Dilma, o que confunde e impede uma mobilização mais ampla e sobretudo mais eficaz. É a chamada sinuca de bico.

Lula deve ser defendido na Justiça e nos foros político-institucionais com todo o vigor de que dispuserem seus partidários, mas a luta política mais geral tem que se concentrar na realização de eleições o mais breve possível, como expressão da recusa enfática pelos brasileiros de um governo ilegítimo e de um programa político que assalta o País não mais sob a forma de mutretas corruptas, mas como projeto institucional de ampliação e aprofundamento da exploração da maioria da população.




[i] O Brasil tem 23.579 cargos públicos em comissão, comparados a 8 mil nos EUA, 4 mil na França, 600 no Chile, 500 na Alemanha, 300 na Inglaterra (Revista Veja, 19, nov., 2011, disponíevl em(http://veja.abril.com.br/brasil/brasil-tem-23-579-cargos-de-confianca-o-triplo-dos-eua/ . Nossa Constituição tem 28 anos, 250 artigos, com 93 emendas constitucionais; a estadunidense tem 227 anos, 7 artigos e 27 emendas. A lei que regulamenta os contratos do governo federal tem 282 páginas na versão impressa pelo Tribunal de Contas do DF:
(http://www.tc.df.gov.br/c/document_library/get_file?uuid=475ad4d0-5a80-4701-9bba-5cd0b1ed4075&groupId=657810 . O tempo médio de tramitação de um processo de execução fiscal é de 8 anos, 2 meses e 9 dias apenas na Justiça Federal de Primeiro Grau: (http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/comunicado/110331_comunicadoipea83.pdf)

domingo, 4 de setembro de 2016

O Partido Cineclubista ou
Que fazer?

O fim da história

Já faz um bom tempo, a gente dizia que era parte do Partido Cineclubista. Uma expressão brincalhona; éramos todos – ou quase todos – comunistas, ou muito próximos disso, e havia ali uma certa homofonia, que ressoava engraçada ou instigante, além da coincidência com a sigla do Partidão. Mas era também mais que isso, a gente se sentia realmente parte de um movimento político que tinha por vocação transformar  o mundo. Nosso objetivo não era apenas derrotar a  ditadura, mas sim fazer a Revolução. O partido, ali, era (talvez não de maneira inteiramente consciente) o partido segundo Gramsci, o partido lato sensu, o Príncipe Moderno: o conjunto de instituições que conduziriam a maioria da população à direção de um profundo processo de transformação da sociedade. O cineclube era uma dessas instituições; o cineclubismo, nosso campo de batalha, e o objetivo final – pouco visível - era um novo cinema, expressão de uma nova sociedade. Tudo isso meio implícito, meio consciente na expressão espirituosa, mas também na nossa militância cineclubista.

No final dos anos 70 escrevi Hegemonia e Cineclube[i], onde definia o cineclube como uma instituição geradora de valores criada pelo público. Na terra do comunista sardo, Fabio Masala e Filippo de Sanctis aprofundavam a questão do associativismo democrático, que desembocaria na Carta dos Direitos do Público[ii] alguns anos depois. Como já escrevi alhures, essa postura, que interpretava no plano teórico as práticas do “partido cineclubista” que organizavam centenas de cineclubes no Brasil e em outros países, principalmente da América Latina, representava uma ruptura com o cineclubismo elitista e cristão, mistura das heranças das grandes personalidades “cineclubistas” francesas – que vão de Louis Delluc a François Truffaut, passando, claro, por André Bazin – e do programa político católico para o cinema, lançado por Pio XI nos anos 30 e tornado realidade pela OCIC[iii]. Mas a primazia dada ao público por nós também significava um reatamento, uma atualização das atitudes fundadoras do cineclubismo operário e revolucionário do começo do cinema, presentes em toda a trajetória histórica do movimento.

Hoje, esse tipo de objetivo mais amplo está meio fora de moda; não é à toa que o chamam de utopia: coisa desejável, mas irrealista, irrealizável. Ninguém, ou muito poucos, propõem a Revolução, a transformação radical da sociedade, o socialismo ou o comunismo (que não são utopias). Estes dois últimos termos existem apenas como penduricalhos arcaicos nas denominações de algumas organizações burocráticas que às vezes os sacodem em campanhas eleitorais nas periferias ou quando se defendem de acusações de corrupção. Mesmo nos ambientes proletários, nas comunidades da massa de excluídos do nosso sistema social, reivindicam-se melhorias, reformas, mas nada que abale os fundamentos da situação mesma que os exclui. Ninguém mexe no essencial. Se há alguma totalidade envolvida na consciência que se propõe sobre sua condição, é uma ideia vaga, meio metafísica, como a de Injustiça. Isso quando não se adota logo de uma vez a regra do jogo e se parte para a busca do sucesso pessoal, através do empreendedorismo – em que todos podem ser empresários de sucesso -, do futebol - todos craques muito bem pagos – e até do cinema – todos realizadores com prestígio – como ferramenta e caminho para a superação da exclusão e da miséria, sempre numa perspectiva individual. Os que não conseguem, é porque não merecem. Ou não têm a graça divina.

Porém... (e tem sempre um porém, como dizia o Plínio Marcos) ao invés de termos chegado ao “fim da História”, como queria aquele professor nipo-americano, o Francis Fukuyama, a aparente dominante ausência de outras perspectivas não se manifesta por uma acomodação social diante do triunfo final do liberalismo. Em toda parte continuam os conflitos: abertamente, genocidariamente, nos campos dos países mais (ou menos) pobres, na África, na Ásia, no Oriente Médio; no eufemismo da violência social cotidiana, como no Brasil, entre tantos outros, ou travestido de um terrorismo meio psicótico nas sedes políticas do domínio planetário. No Brasil, que fica meio que na metade desse caminho, país de desenvolvimento médio e top de desigualdade, marcado secular e essencialmente pela dependência e subalternidade no processo econômico e político mundial, esse quadro tem características muito próprias.

O golpe

Tivemos – entre 2002 e 2016 - um governo populista que, como na tradição varguista, promoveu reformas sociais importantes, mas limitadas. Isso ao mesmo tempo que contribuía, acessoriamente, à maneira brasileira, para a divisão e amortecimento dos movimentos populares, e para a descaracterização de seus objetivos – fenômeno muito mais abrangente e profundo que vem, como sempre, dos países centrais, que determinam a situação mundial. Mas, como sempre lembrava Darcy Ribeiro, nossas classes dominantes são particularmente execráveis: nem mesmo lucrando com um governo que, no limite, ajudava a abrandar conflitos sociais, puderam aceitar os pequenos avanços sociais e uma certa resistência institucional à retirada de direitos que dificultam o incremento da espoliação dos trabalhadores. Um golpe, então, foi articulado e executado: acaba de se consumar[iv] com o afastamento da presidenta eleita e a entronização de um governo provisório cuja mediocridade excede até mesmo o baixíssimo padrão da chamada classe política brasileira. Para os golpistas, as próprias mazelas do governo deposto e de sua base política devem, complementarmente, enfraquecer substancialmente pelo menos suas bases partidárias, senão as sociais.

Mas a insignificância intelectual e a mesquinhez ética não são os atributos em que mais se destaca esse movimento golpista e nossas “elites”. Creio que seu pior predicado é a ganância voraz revestida de total insensibilidade humanitária diante do sofrimento que possa resultar de seu apetite financeiro imediatista. Como no golpe militar de 1964, não hesitam diante da possibilidade de derramamento de sangue. De fato, a derrubada de um governo legítimo, apoiado em votação expressiva e pela clara manifestação de uma parcela significativa da população, pode perfeitamente levar a uma forma de resistência mais robusta que as marchas ou ocupações de espaços públicos, e mesmo estas podem resultar em conflitos graves, com mortos ou feridos. A própria sombra de uma guerra fratricida nunca esteve excluída, nem em 1964 nem agora, ainda que a própria tibieza do governo deposto, bem como a desorganização das massas – para a qual contribuiu – não indique uma probabilidade maior. Nada disso, contudo, jamais deteve nossas classes dominantes. Compreende-se: qualquer conflito, no contexto de fragilidade ideológica e política dos segmentos populares, produziria suas vítimas apenas nas ruas e nas comunidades populares: essas ditas elites nunca correriam nenhum risco. Elas vivem literalmente blindadas, e esse “custo” lhes é indiferente. As esquerdas (ou ao menos seus eleitores) e os segmentos populares, por outro lado, seriam as próprias vítimas; não podem, portanto, deixar de considerar essa variável. Valeria a pena dar a vida por um programa de governo que visa apenas a reformas limitadas? E, se valesse, há organização e unidade suficientes para enfrentar as forças do golpe?

A resposta para essas duas questões é negativa. A mudança social que os trabalhadores e os excluídos necessitam vai muito além da geladeira e da faculdade de má qualidade que constituíam o projeto do governo deposto. E mesmo que assim não fosse, a organização social da maioria da população é hoje absolutamente insuficiente e precária, sem número, sem unidade e sem direção para elaborar e propor um projeto consistente de transformação radical da sociedade. O problema é maior e mais complexo que isso. Enquanto boa parte das esquerdas – admitindo-se que esse termo se refere aos setores sociais que querem mudanças democráticas e progressistas – faz parte desse modelo reformista limitado que mencionei, outra parte não assimilou ou não soube traduzir em prática política a formidável experiência histórica que foi a queda da União Soviética e a falência desse modelo de socialismo em praticamente todos os países que o adotaram.

Falência do socialismo

Aqui é preciso abrir um pequeno parêntese: falar em falência do modelo de socialismo é considerar que ele falhou em cumprir o que dele se espera ou o que ele mesmo propõe: simultaneamente e em todos os níveis, justiça social e democracia em valores absolutos. Esses objetivos ou foram efetivamente traídos ou não foram alcançados, ou sequer eram claramente visíveis, mesmo depois de um período relativamente extenso de implantação: o comunismo soviético durou mais de 70 anos. Essa falência não se define por comparação ao modelo capitalista dominante, que se fundamenta justamente, especificamente, na exploração da maioria por uma minoria e na reprodução crescente de práticas que levam à extinção da Humanidade.

Voltando às esquerdas revolucionárias: elas mantêm, então, um discurso e prática que se identificam com a - e constituem uma boa parte da - razão da “derrota do socialismo”. Seguindo a formulação clássica marxista, aceitam que a luta de classes se dá em todos os níveis da vida social: no nível da produção econômica, no plano da ação e da representação política, e no âmbito dos valores ideológicos – que vão da fala ao sonho, por assim dizer, passando pela moral, pela religião, pela arte. O erro que contribuiu de forma importante para a “queda do socialismo” e que não foi superado por essas esquerdas consiste na supervalorização da esfera política (e da esfera política institucional, em muitos casos) em relação às esferas econômicas e ideológicas da luta de classes.

A ideia de hegemonia implica em que não se pode estabelecer e manter a direção da sociedade apenas pela força (domínio e coerção, esfera política) ou apenas por um projeto de sociedade capaz de ser visto como melhor (direção e consenso, esfera ideológica). As duas coisas são indispensáveis. Na estrutura capitalista de hoje, além do monopólio da força, as classes dominantes conseguem como nunca vender a superioridade e a inevitabilidade do sistema. Mas, apesar da força das organizações e instrumentos de convencimento de que dispõem, somente o monopólio e a censura combinados em diferentes níveis conseguem viabilizar esse “convencimento” e a adesão das massas ao capitalismo. O elemento de força está sempre presente em alguma medida e isso acontece essencialmente porque se trata de um grande e essencial engodo, uma grossa mentira. Não há melhor exemplo, acho, do que a verdadeira campanha – travestida de jornalismo - feita pelas mídias brasileiras para derrubar o governo constitucional do Brasil. Além do conceito de hegemonia, Gramsci falava da importância da superioridade intelectual e moral que devem ter as ações e instituições de uma classe que pretende estabelecer sua hegemonia. A noção de superioridade moral e intelectual parte do princípio de que a sua proposta deve parecer verdadeira, eticamente justa, mas também melhor para a maioria. A educação, a propaganda, até a religião podem contribuir para essa missão de sustentar um sistema, mas, a longo prazo – e estamos falando de prazos históricos – o elemento coercitivo da mentira, isto é, da inadequação essencial do sistema às necessidades do conjunto dos seus integrantes, acaba prevalecendo. Isso porque essa mentira não é apenas uma ideia produzida pela mídia, ou um preceito moral, mas um fato social bem concreto, que se situa no plano da reprodução essencial da vida, isto é, na esfera econômica. No caso do sistema capitalista, a mentira é a mais-valia, a exploração de muitos, da maioria, por uns poucos,que é a essência das relações sociais no plano mais básico, da economia.

No caso do comunismo de inspiração stalinista, o sistema que começou com a eliminação da exploração econômica não foi capaz de gerar práticas e instituições nos planos político e ideológico que acompanhassem, exprimissem essa nova condição. Ora, essa divisão entre econômico, político e ideológico é uma abstração, a realidade é uma totalidade em que os níveis se imbricam e se influenciam, determinados, em última instância, pelo fato social mais essencial e mais concreto, a produção econômica da vida. O autoritarismo gerado inicialmente em defesa da Revolução (função de domínio) nunca se superou em novas formas de repesentação política que promovessem o consenso – ao contrário, matou muito perto do nascedouro as potencialidades dos conselhos populares, os sovietes, ossificando-os numa camada de dirigentes que, num sentido bem prático, restabeleceu uma espécie de classe dominante. A perspectiva do fator ideológico da hegemonia se perdeu na transição para o stalinismo, transformando o regime numa ditadura stricto sensu, exercida por supostos representantes do proletariado. Daí eu falar em supervalorização da esfera política: o Estado como aparelho de dominação substituiu o coletivismo do espírito comunista, substituiu a sociedade em todos os níveis – econômico, político e ideológico. Tornou-se incapaz de gerar novas instituições, instituições socialistas, que expressassem novos valores, baseados na solidariedade coletiva, que representassem um novo sistema. A falta de liberdade, erigida ela mesma em sistema, impedia a própria evolução do sistema. E quando se tentou abrir o sistema, ele implodiu – com uma decisiva ajuda dessa mesma “comunidade internacional” que hoje bombardeia o Oriente Médio... Não havia criado o consenso necessário à sua estabilidade.

A queda da União Soviética foi literalmente capitalizada e transformada numa vitória da ideologia do século 18, o liberalismo. Um dos seus efeitos mais nefastos foi a desestruturação generalizada das esquerdas socialistas, resultando na capitulação total de uma maioria de partidos ao reformismo a que me referi anteriormente, na divisão e enfraquecimento de outros e numa perplexidade e confusão do próprio pensamento de esquerda diante dos acontecimentos. Só não diminuiu o sofrimento da maioria da população, agora submetida a uma única superpotência policial mundial e à aliança militar dos principais países do Norte. Ao contrário, a exploração se espraiou vertical e horizontalmente, ampliando a fome - quando, paradoxalmente, pela primeira vez o mundo atingiu a autosuficência alimentar -; mantendo ou restabelecendo todas as formas de exclusão e preconceito, especialmente as de raça, gênero e cultura; acelerando, ao invés de deter, a produção de poluentes e de produtos nocivos à saúde – enquanto restringe o acesso e a pesquisa de medicamentos. Em uma palavra: destruindo o planeta e a vida que o habita.

No Brasil, em grande parte devido à prevalência de um grande partido não marxista entre as esquerdas, o patrimônio intelectual da classe operária e dos trabalhadores em geral foi muito mal compreendido, e pior copiado. Alcançando o governo em 2002, o PT – em parceria com o PCdoB – mesmo dentro das limitações de suas amplas alianças com as classes dominantes, logo aplicou a primazia da política, através do Estado, nos poderes Executivo e  Legislativo. Arremedo do processo soviético, incorporou e contratou as grandes lideranças sindicais, estabelecendo uma relação de proximidade/cooptação com as organizações classistas. Apesar de ceder setores importantes da economia à iniciativa privada, com privatizações e projetos de infraestrutura, passou a estatizar, por exemplo, todos os níveis de prática cultural: chegou a “inventar” um novo segmento da cultura, o dos Pontos de Cultura, criado com a apropriação pelo aparelho estatal das práticas de entidades variadas da sociedade civil e também com a cooptação de personalidades do meio cultural em sentido amplo. Como tenho escrito reiteradamente desde 2008, bem antes do começo da agonia, isso levou à dependência quase total e, rapidamente, ao encerramento de muitas dessas iniciativas – e o cineclubismo é um caso exemplar. Na produção cinematográfica, ao mesmo tempo que o governo estabelecia um acordo de “partilha” (90% para a MPAA[v], 10% para a produção nacional – e essa mesma em parte controlada pela entidade estadunidense) do mercado, estatizava a produção excedente, de curtas-metragens, financiando todo o processo: produção, distribuição e exibição, ainda que com inúmeras precariedades, em especial na ponta da recepção, do público. Esse modelo, como o eslavo, ruiu antes mesmo da crise política atual, mas também ajudou a derrubar o governo que, apesar – ou justamente por causa - da cooptação, não conseguiu motivar suficientemente a população e, diante do golpe, teve pouco mais que o apoio dos mesmos setores que ajudou a afastar das bases mais amplas.

Que fazer?

Vivemos um período histórico muito difícil, particularmente doloroso ao nos propor dilemas ético-políticos inéditos. Saddam Hussein era um ditador sanguinário, mas foi substituído pelo genocídio da população iraquiana; a derrubada de Muammar Gaddafi transformou a Líbia em terra arrasada; na Síria, nem os EUA, do alto de seus drones assassinos, consegue distinguir direito a quem matar. Metade do mundo árabe está em escombros, a outra metade sob ditaduras que a “comunidade” e imprensa internacionais não questionam. No Brasil, nesse quadro democrático em que “não há golpe” porque o Supremo Tribunal indiscutivelmente dele participa, temos que sair à rua para defender um governo bastante ruim, mas legítimo no quadro legal vigente, diante da perspectiva de uma situação muito pior, que agora entra em nova etapa.

O curto mandato do presidente usurpador – como já ficou claro na sua interinidade – deve, antes de mais nada, deter ou descaracterizar as investigações sobre corrupção nos meios políticos e empresariais. Depois, tem fundamentalmente dois objetivos, que afinal fundem-se num só. Primeiro: desarticular a presença e influência do PT no aparelho do Estado, tanto no plano federal como nos estados e municípios, aproveitando-se das eleições municipais, do apoio cúmplice da mídia e do enfraquecimento do próprio PT. Segundo: quebrar a institucionalidade dos grandes direitos trabalhistas – que não são uma “conquista dos últimos anos”, mas resultado de uma luta secular dos trabalhadores[vi] – e outros que entravem a apropriação dos resultados do trabalho. Os dois objetivos convergem para a viabilização de um projeto de governo para as eleições nacionais (e estaduais) de 2018, numa possível conjuntura de maior estabilidade econômica – para a qual todas as “classes produtivas”, isto é, o capital nacional e internacional, contribuirão – e sobre uma base constitucional mais legítima, ou seja, idealmente sem grandes contestações.

Que fazer diante desse quadro? Devemos ir às ruas para defender a reversão do processo e a reinstalação da presidenta deposta? Penso que esse objetivo é de difícil realização, diante da importante mobilização de grandes setores da população insatisfeitos com a gestão de Dilma Roussef e do suporte que têm por parte da imprensa, do empresariado e da grande maioria da “classe política”. Essa perspectiva levaria ao impasse e à periclitação da estabilidade social, à possibilidade de violência que, mais uma vez, só beneficiaria o recrudescimento da repressão e o avanço das medidas antipopulares. Mesmo a hipotética reinstalação de um governo que foi ardilosamente derrubado só levaria à prorrogação infinda de um período de instabilidade e ingovernabilidade. Como já foi dito, ainda que nada justifique sua remoção, esse governo também não incorpora a expectativa, nem a capacidade de uma transformação radical da sociedade.

Por outro lado, o povo não pode recuar diante da grave ameaça que se está consolidando. Não podemos deixar a coisa esfriar e ser esquecida, como se fosse possível “tocar a vida” para a frente. Porque estaremos sendo tocados para trás, perdendo nossos direitos, sujeitando-nos mais, a cada dia, sob esse novo establishment. Esquecer é ser dominado. Por isso, o objetivo imediato, a palavra de ordem para a resistência – que, dialeticamente, deve significar também avanço – tem que ser ampla - para poder ser hegemônica – e motivar não apenas os adeptos do PT, ou as esquerdas já constituídas, mas aquela grande maioria que está engolindo um Michel Temer que não quer e que deverá crescer a cada nova medida impopular do governo, nos próximos meses. A palavra de ordem deve ser, também, de simples compreensão, mas rica em significado, de forma a permitir o aprofundamento do seu sentido através da própria luta, contribuindo para o crescimento da autoconsciência popular.

Essa palavra de ordem é “Eleições Presidenciais Já!”. Sem cair na armadilha de dividir esse programa, tal como propor junto uma assembleia constituinte ou eleições para todos os cargos. O período que se abre será um momento de graves definições, de rearticulação dos setores populares, hoje extremamente divididos. Rearticulação essa que não está de forma nenhuma garantida; muito ao contrário. Também será, como disse acima, um tempo de enfrentamento e teste para as classes dominantes em vista da implantação de uma sua posição mais sólida e definitiva em 2018. A mobilização permanente, mas ao mesmo tempo objetiva, da população, é fundamental como passo inicial para a rearticulação dos liames entre povo e organizações políticas, movimentos, partidos. A pressão parlamentar da minoria de oposição deve estar vinculada a essa mobilização – e não ser vista como um fim em si mesmo, isto é, a mera armação de alianças do estilo que acaba de se mostrar errado e inútil, para não dizer oportunista. O desafio é enorme. As primeiras indicações do PT são contra a realização de eleições e a favor do esquema lulista de alianças eleitorais[vii] de vistas curtas. Mas isso é superável se houver uma clara manifestação do interesse das massas que, creio, já coincidem com a proposta de eleições já. Que, afinal, é uma tradução mobilizadora da expressão mais vaga: “Fora, Temer”.

A probabilidade de alcançar essa meta é bem pequena, dada a pouca organização da maioria da sociedade e o enfraquecimento e divisão das instituições a ela ligadas. Mas a própria luta é um exercício e um caminho para um objetivo de organização superior. Um pouco como foi a campanha das “diretas já”, derrotada num primeiro momento, mas vital no processo de derrubada da ditadura militar.

E os cineclubes?

            Se há, por paradoxo, um lado positivo nesse golpe, é que ele elimina o que possa ter restado de ilusão entre as iniciativas culturais comunitárias sobre o papel do Estado. O movimento de cineclubes entrou de cabeça nessa quimera incentivada pelo governo populista. A tal ponto que, mesmo depois da falência das chamadas “políticas públicas” para a cultura – que, para os cineclubes, duraram de 2008 a 2010 – as principais lideranças cineclubistas continuaram a mendigar os favores do governo que, no entanto, nunca mais vieram. O mais trágico disso é que várias práticas cineclubistas, fruto de sua experiência secular, se perderam quase totalmente, realimentando o processo de estiolamento do movimento. O maior dano veio da perda dos vínculos com suas comunidades, com o abandono do associativismo organizado e da sustentabilidade pelas bases – ao invés da dependência suicida do Estado. A comunidade, dessa forma, deixa de ser público auto-organizado e passa (ou volta) a ser plateia das atividades promovidas não por ela, mas para ela – por melhores que sejam as intenções beneméritas com que também se calça o inferno... Mas, como esse governo já deixou tão claro desde suas primeiras trapalhadas no campo da cultura, agora não cabe mais nenhuma ilusão.

Para os cineclubes, a possibilidade de terem uma participação significativa na resistência ao avanço da exploração da população coincide com a definição do seu papel na construção de uma sociedade justa e democrática – e na invenção de um cinema que represente e exprima as necessidades, interesses e sonhos de todos, não de alguns. A grande lição de Gramsci é que o socialismo se constrói todo o tempo, e não depois de uma tomada de poder. Que, de fato, a criação de instituições não capitalistas, superiores a estas moral e intelectualmente, constitui um dos pré-requisitos fundamentais para a construção da sociedade futura. Quando a burguesia derrubou revolucionariamente a nobreza, a maioria das instituições, e as mais eficientes, já eram burguesas. A ação política extrema, certamente indispensável – porque ninguém entrega o poder docilmente – apenas culminava a construção de uma nova ordem, já em grande parte hegemônica. Assim, a par de mobilizações de massa, de participação parlamentar, é absolutamente essencial construir e consolidar instituições em que a sociedade se organize, se represente, se expresse. Em que exercite e desenvolva a consciência de sí mesma, como indivíduos e como comunidade. Essas instituições têm que ser melhores que as instituições capitalistas, que deverão substituir, em todos os níveis: econômico, político e ideológico. Ou não sobreviverão.

Os cineclubes são esse tipo de instituição. São uma atividade econômica, mas não comercial; política, sob a forma do associativismo democrático, e ideológica por expressarem os interesses do público, não do capital. Surgiram como uma alternativa ao cinema comercial por necessidade e iniciativa do público. E estabeleceram as bases para a superação do modelo capitalista: a eliminação da divisão social do trabalho (produção-distribuição-exibição-consumo), da alienação entre criação e recepção (autor e público) e o estabelecimento do controle pelo público (associação no lugar da empresa). O cineclube é o embrião do cinema futuro, expressão de uma nova sociedade – como dizíamos nos tempos do partido cineclubista.

          Os grandes desafios do cineclubismo brasileiro (e mundial) são a reconstituição dos seus vínculos com a comunidade – abrindo-se e conseguindo construir uma ampla participação coletiva e democrática em suas comunidades e alicerçando sua sustentabilidade nessa relação – e a expansão de suas ligações com todas as outras formas de organização independente da sociedade civil, de forma a constituir não apenas uma rede, mas um verdadeiro novo tecido político-social, base de uma sociedade nova e uma nova Humanidade. Consolidar-se nas cidades sem cinema – grande maioria dos municípios brasileiros -, nos bairros das cidades maiores, nas escolas de todos os níveis, nos sindicatos e movimentos organizados, nas empresas, hospitais, quartéis, ocupações rurais e urbanas, em toda parte, fazendo da experiência coletiva do cinema um exercício, diversão e aprendizado corriqueiros da vida em comunidade – apropriando-se da riqueza e poder do audiovisual para expressar a liberdade, ao invés de projetar submissão. A sustentabilidade dos cineclubes deve vir da sociedade, e não do Estado (sem abdicar das verbas públicas, quando isso couber), através das contribuições de associados, de taxas de manutenção, da contribuição no “chapéu”, e da composição com outras iniciativas independentes, com iniciativas comuns como feiras de arte, festas comunitárias, ilustração de cursos e oficinas e tantas outras. O cineclube tem que ser “melhor” que o cinema que vai substituir, não apenas no conteúdo da programação, mas igualmente na relação com o conteúdo exibido, isto é, garantindo um conforto razoável para uma sessão de duração razoavelmente longa. Para isso deve negociar, conquistar, ocupar, os espaços comunitários – em colaboração com teatros, sindicatos, associações de bairro e outras organizações populares que possuem sedes ou espaços próprios – e públicos, muitas vezes subutilizados – como  cinemas e teatros estatais, auditórios de escolas, de bibliotecas públicas, de instituições profissionais apoiadas pelo Estado (como as de advogados, médicos, engenheiros, arquitetos, entre outros).

          Assim, de certa forma, se reconstituiria aquele nosso partido cineclubista, vocacionado para se identificar e compor com outras inciativas populares, convergindo numa grande vontade política de transformação, de libertação individual e coletiva, de preservação de toda vida e salvação do planeta. Nada mais, nada menos.

Felipe Macedo





[iii] Organização Católica Internacional de Cinema.
[iv] Este texto foi escrito entre 31 de agosto  e de setembro de 2016.
[v] Motion Pictures Association of America.
[vi] Estão sob ataque principalmente a CLT, Consolidação das Leis Trabalhistas, dos tempos de Vargas, e as atuais disposições da Previdência Social.
[vii] A Direção Nacional do PT já decidiu contra a chamada de eleições; os jornais de 1º. de agosto falam das articulações de Lula no Congresso com vistas a 2018 – e não “por um projeto de País”, como costuma alegar aquele partido.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O cineclube contemporâneo

(é preciso) se dar conta que não é só uma mudança do sistema, é uma mudança de cultura, uma cultura civilizatória. E não tem como sonhar com um mundo melhor se não passar a vida lutando por ele. Temos que superar o individualismo e criar uma consciência coletiva para transformar a sociedade.” — Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai em discurso para estudantes brasileiros (Rio de Janeiro, 2015)


Primeira parte: prolegômenos

Balanço rápido (e incompleto)

Para muitos intelectuais franceses, o cineclubismo desapareceu depois da velha vaga da cinefilia das primeiras décadas pós-II Guerra Mundial. No resto da Europa acontece algo semelhante: o número de cineclubes diminuiu enormemente nos últimos 40 anos, a ponto de praticamente se ignorar sua existência, ou sua identidade, em meio a atividades culturais e sociais diversas. Isso também é verdade para os antigos regimes socialistas, onde o cineclube era questão de Estado, isto é, tinha apoio governamental. Deixou de ser, e o mercado – que substituiu muitas funções do Estado – não demonstra grande interesse por esse tipo de atividade.

No mundo árabe e na África subsaariana os cineclubes existem – como em toda parte – mas na maioria dos países são casos isolados, iniciativas únicas, ou quase. O mesmo vale para a Ásia, com as possíveis exceções da Índia e talvez Bangladesh, onde os cineclubes, no entanto, não são nem sombra dos milhares que existiram até os anos 80. A Austrália e a Nova Zelândia, países ligados à tradição britânica, têm situação semelhante à da antiga metrópole.

Mesmo na América Latina, onde o auge dos movimentos cineclubistas foi provavelmente no período das ditaduras generalizadas no continente, entre as décadas de 70 e 80, os cineclubes também são uns tantos polos ativos, mas isolados e frequentemente efêmeros. A exceção, para muitos, seria o Brasil, onde os programas governamentais multiplicaram pontos de exibição audiovisual. Mas, passados alguns anos, não existe um levantamento fidedigno que comprove a existência de um número muito significativo de cineclubes, diferentes de atividades de exibição esporádica e sem organização própria.

O cineclubismo tradicional, organizado como um movimento cultural, subsiste em muitos países europeus - como França, Reino Unido, Itália, Alemanha e outros – de forte tradição cineclubista, e onde existem políticas públicas consolidadas de apoio à atividade, mas numa escala muito mais modesta que no passado não tão distante. No resto do mundo, os cineclubes resistem atomizados, situação que não é incomum em sua história.

Na contracorrente dessa agonia, centenas, talvez milhares de cidades dos EUA têm suas film societies, das quais a mais famosa deve ser a do Lincoln Center, de Nova York. Ironicamente, os Estados Unidos, que nunca participaram do movimento cineclubista internacional, podem ser o país com maior número de cineclubes hoje em dia, ainda que de um tipo particular.

Contra os cineclubes

            O senso comum, isto é, a opinião geral, repercutida mecanicamente e sem muita reflexão, credita a fragilidade atual do cineclubismo às novas tecnologias, que permitiriam o acesso quase ilimitado a filmes (em computadores, tablets, celulares), enquanto os cineclubes, antes, tiravam sua importância justamente de propiciar a oportunidade de ver obras não disponíveis no mercado tradicional (salas de cinema). O interesse por esses filmes de nacionalidades incomuns nos cinemas tradicionais, o gosto por temas, estilos, narrativas particulares, diferentes e ousadas foi chamado de cinefilia, quase uma forma de culto, e o cineclube era seu templo. Hoje, a oferta não apenas de filmes, mas de outros conteúdos audiovisuais, em novos formatos e suportes, é exponencialmente maior. Aquela cinefilia seria agora um fenômeno renovado e diferenciado, numa escala muito maior mas, ao mesmo tempo, exercida de forma mas íntima, individual[1] – de resto como cabe muito bem ao ato de culto.

         Mas, para muitos, os cineclubes não teriam sido apenas superados por esses aspectos da tecnologia. Sua estrutura e inserção na sociedade, excessivamente formalizadas num modelo do século XX, estariam ultrapassadas: hoje todos podem se comunicar on line e as decisões podem ser tomadas de forma muito mais ágil e informal, sem a burocracia ligada à constituição de uma associação civil, nos termos da lei. Não há mais necessidade de associados, com direitos e deveres diferenciados, nem de uma direção estruturada em cargos que exprimem a coordenação de atividades que hoje todos podem fazer juntos, sem complicações desnecessárias e até hierarquizantes.

Esta é uma postura que tem mais aceitação no Brasil que em qualquer outra parte do mundo. E creio que, também apenas em nosso País, o Estado aceitou e convive com essa realidade, criando políticas governamentais que estimulam os chamados coletivos informais (não apenas de cinema, mas em todas as atividades culturais comunitárias), cujos compromissos formais são assumidos por uma única pessoa física. É verdade que a burocracia para registrar uma entidade qualquer, no Brasil, é notoriamente mais complicada que na maioria dos países. Mas sua contrapartida, não apenas no nosso caso, é a criação de soluções ad hoc, verdadeiras gambiarras que, cedo ou tarde, criam novos problemas.

De uma maneira geral, no mundo todo se mantém o modelo de organização civil, com associados e dirigentes eleitos. No entanto, pelo menos em muitos cineclubes nos países mais ricos, na Europa, e praticamente em toda a América do Norte anglófona, essa forma de organização se adaptou às necessidades de convivência com o mercado. É o modelo por excelência das film societies estadunidenses, e de grande parte das inglesas e canadenses. Nesses casos, o cineclube se torna ou busca a condição de instituição cinematográfica cultural da cidade. Sua administração é profissionalizada nos moldes de uma gestão comercial, com uma equipe contratada sob controle de uma direção eleita, geralmente em forma de conselho de notáveis. Os associados representam ou evocam ainda a adesão e o vínculo com a comunidade, mas não têm participação real na orientação da associação. Os sócios são também uma forma de promoção financeira e fidelização dos frequentadores. Esses cineclubes têm uma programação de tipo tradicional, cobrindo a diversidade cinematográfica que não entra no mercado ou valorizando os filmes que vão ficando velhos: complementam a circulação comercial dos filmes, sem colidir com os interesses da indústria cinematográfica. Em grande maioria, também aceitam e pagam pelos “direitos autorais” dos distribuidores.  Nesses países, geralmente existem diferentes programas – públicos e privados - de apoio à atividade cineclubista, mas esta sempre se completa também pela promoção de outras fontes de receita e com a cobrança de ingressos. Na prática, são dirigidas por seus administradores, sem participação do associados; funcionam com pequenas empresas comerciais autônomas que atendem uma necessidade que o mercado não provê – e pela qual não se interessa -, mas não colidem com ele.
No Brasil, as entidades estáveis mais ou menos baseadas nesse modelo são mantidas por instituições de ensino superior ou administrações municipais; são coordenadas por funcionários da instituição e geralmente não têm nem conselhos nem associados, e tampouco cobram por suas atividades. Outras formas aspirantes a uma gestão de tipo comercial, com ou sem formalização, são geralmente menos estáveis, pois sem uma legislação consolidada no País, oscilam e vacilam conforme existam ou não programas governamentais de fomento à sua atividade. Diferentemente de suas homólogas estrangeiras, tanto num caso como no outro, não se apoiam nem no mercado nem na comunidade, mas exclusivamente em programas governamentais. Não é incomum que se denominem cineclube.

Numa avaliação quantitativa, o modelo original de cineclube participativo - e muito frequentemente subversivo - foi superado em quase todo o mundo por diferentes formas mais ajustadas às políticas governamentais e às regras do mercado audiovisual, também complementares entre si.

Formas de cineclube na História

Sempre se diz que uma das características – e riquezas – da instituição cineclube é a sua capacidade de adaptação a diferentes contextos e circunstâncias. Apenas três características gerais são permanentes na história dos cineclubes e, como também está praticamente consagrado, juntas elas distinguem os cineclubes de qualquer outra atividade similar[2]. São elas: o caráter coletivo e democrático, a ausência de finalidade lucrativa e, decorrente desta, o objetivo cultural em sentido mais amplo. Atendidas essas condições, os cineclubes se organizam, e às suas atividades, de acordo com a comunidade em que se instalam e as conjunturas do momento. Cineclubes de cinéfilos, de escolas, de sindicatos, de acampamentos, de aldeias, de grupos políticos e movimentos sociais, de gêneros ou de etnias, de imigrantes, de comunidades de bairro ou pequenas municipalidades – sem falar das comunidades possíveis no plano virtual, que ainda estão sendo ou para ser criadas -; não há limite, fora das três condições citadas anteriormente, para a diversidade dos cineclubes.

Mas certamente é possível identificar formas preponderantes – como as que tratamos nos itens precedentes – em diferentes momentos históricos, em ambientes sociais, de classe, ou nas tradições cineclubistas nacionais. Assim, podemos dizer que o cineclubismo nasceu, no começo do século XX, entre o modelo revolucionário anarquista ou socialista e o tipo eclesiástico, principalmente católico, ou benemérito. Nos anos 20, consolidou-se um outro paradigma, o do culto cinéfilo. Há muitas outras maneiras de distinguir os cineclubes, mas essas três “fórmulas” são, mutatis mutandis, as de maior duração e influência sobre todo o cineclubismo, recorrentes ao longo de sua história. E a elas – e a combinações entre elas - pode-se sempre relacionar, de alguma forma, todas as tão diferentes práticas cineclubistas.

Em outro lugar[3], trabalhei com uma categorização mais ampla de iniciativas do público; aqui, mais acima, falei da quase infinda tipologia dos cineclubes em situações concretas. Mas há também, como acabamos de ver, esses três grandes paradigmas históricos de cineclube: o revolucionário, o paternalista e o elitista. Como já dissemos, esses traços distintivos podem ser exclusivos, ou quase, mas no mais das vezes se conjugam, com intensidades variáveis.

O cineclube revolucionário tem suas raízes até antes do cinematógrafo, nos clubes operários do século XIX, em palestras e debates apoiados em projeções de lanternas mágicas – substituídas pelo cinematógrafo no fim do século. Consolidado no início do século XX[4], esse tipo de cineclube se define pelo objetivo ou compromisso de tornar o público (ou o operariado, as classes populares; a terminologia varia com a época) sujeito do processo cinematográfico, como parte de um programa mais amplo de libertação radical de toda forma de exploração. Tendo início nos meios anarquistas, socialistas e feministas da virada para o século XX, prosperou nos anos e décadas seguintes entre comunistas de variados matizes, movimentos anticoloniais ou de libertação nacional, refluindo e reduzindo-se, já neste século, a alguns países e movimentos sociais.

O cineclube paternalista leva este adjetivo pela sua finalidade principal de instruir, educar, formar o espectador e o público dentro de um modelo pré-concebido. Em sua forma mais pura e completa, esteve ligado a iniciativas religiosas, com destaque para a igreja católica romana[5]. Seus sinais originais podem ser até mais antigos que os dos cineclubes operários que citamos acima[6] mas, grosso modo lhes são contemporâneos. Depois dos primeiros tempos do cinema houve certo hiato em sua atividade – um período em que a igreja anatemizava o cinema, até este ser revalorizado pela encíclica Vigilanti Cura, em 1936, que passa a ser um guia para a ação católica com o cinema. O período áureo desse tipo de cineclube é o pós-guerra, até aos anos 60. Mas o paternalismo, a tutela do público, tem uma influência bem mais vasta...

Chamo de elitista o paradigma criado nos anos 20 com a apropriação da experiência cineclubista por certos setores da intelectualidade parisiense[7] e sua codificação sob “forma culta”, como entende Antoine De Baecque[8]. Segundo ele, o cineclube (ou a cinefilia) se constitui como uma cultura quando reúne um tipo de especialistas, connaisseurs, capazes de sistematizar - preferencialmente sob forma literária – sua experiência. Além dos grandes nomes dos anos 20, De Baecque deriva sua observação sobretudo de alguns cineclubes parisienses[9] de onde se originaram as revistas Cahiers de Cinéma et Positif, e depois o grupo de realizadores da Nouvelle Vague. Christophe Gauthier também fala em um protocolo cineclubista quando descreve as características que identificavam as atividades cinéfilas (não apenas de cineclubes)  nos anos 20[10], como as sessões semanais, a realização de debates, publicações, entre outras.
É essa idéia de “especialistas”, capazes de redigir textos “cultos”, necessariamente distinguindo os cinéfilos do restante da humanidade, que baseia o caráter e adjetivo de elitista. Foi o modelo que se institucionalizou, se oficializou - no sentido de prevalecer socialmente - e que ficou incorporado na expansão mundial do cineclubismo, a qual teve seus maiores momentos justamente – e, em boa medida, por isso mesmo – quando da notoriedade dos cineclubes da vanguarda francesa dos anos 20, e da Nouvelle Vague, nos 50. O Brasil não fugiu à regra, sacralizando o Chaplin Club[11] como “o primeiro cineclube” brasileiro.

         Como já disse, essa classificação tem função didática: aponta a origem e trajetória histórica do fenômeno; é indicativa para a compreensão de casos concretos, mas não pode ser aplicada mecanicamente. Esses traços – de radicalismo, paternalismo, elitismo – também não devem induzir a uma valoração rasteira, moralista. De fato, na maioria dos casos, os cineclubes concretos misturam e transformam essas influências. Assim, pode haver cineclubes com elementos revolucionários, paternalistas e elitistas simultaneamente ou em diferentes combinações e intensidades. A herança “revolucionária” pode ser reduzida a uma agressividade vazia ou retórica; o paternalismo pode ajudar a construir importantes experiências de formação do público; a referência elitista pode constituir um desafio para o crescimento intelectual do cineclube e da comunidade.

Segunda parte: contrapontos

A favor dos cineclubes – mercado e tecnologias

         Cinema não é tecnologia, é arte – como já dizia nosso elegante antepassado, Ricciotto Canudo. A ideia de que novas tecnologias possam acabar com uma forma de arte é uma falácia, aliás recorrente nas trajetórias de várias formas de expressão. Se novas tecnologias fossem determinantes para acabar com os cineclubes, como mencionado no início deste texto, também o seriam para as salas comerciais de cinema. No entanto, o número de salas continua crescendo em todo o mundo (22% em relação a cinco anos atrás; na América Latina, 78%)[12]. Nos EUA e Canadá, o público está mais ou menos estável desde o início do século, em torno de 1,3 bilhões de pessoas por ano – mas equivale a mais de dez vezes o público de todos os principais esportes somados (futebol americano, basquete, beisebol e hóquei), nos dois países. Neles, 68% das pessoas com mais de 2 anos frequentam o cinema uma média de 6 vezes ao ano; os maiores frequentadores estão na faixa entre 12 e 39 anos. Ora, como é amplamente sabido, é essa população que mais acesso tem às novidades tecnológicas e também a que mais uso faz delas.

Seria mais sensato admitir que as mudanças tecnológicas alteram a relação do público, inclusive quantitativamente, mas nunca a ponto de acabar com uma forma de expressão artística fundamental. Assim, nos anos 20, sem rádio, televisão ou outro entretenimento acessível, 70% da população americana iam ao cinema mais de 40 vezes ao ano. Esses números não mudaram significativamente nem com a Depressão, mas apenas entre o final de II Guerra e os anos 60, quando a televisão realmente estabeleceu novos padrões de audiência. Desde então, a frequência estabilizou-se em números ainda muito importantes. É verdade, contudo, que a atração atual pelo cinema comercial nestes patamares – em oposição à crise do cineclubismo - se deve muito a um fabuloso esquema de propaganda e controle dos mercados e ao estabelecimento de um padrão de espetáculo pirotécnico milionário (3D, IMAX, etc.).

Por outro lado, esse caráter ribombante do espetáculo cinematográfico e a diminuição relativa, mas indiscutível, do público, levaram a exibição a se concentrar nos países desenvolvidos e nos segmentos mais afluentes da população no resto do mundo. Nos últimos anos tem até aumentado, em números absolutos, o público (e bastante, a renda) cinematográfico, mas sob um novo “modelo de negócios” [13], excluindo a maior parte da população nos países menos desenvolvidos e isolando os setores mais informados (daí, em parte, o sucesso das film societies), reservando para as grandes massas a vulgaridade e a alienação[14]. Há mesmo diversos países em que já não há praticamente cinemas.

         Na verdade, creio ser mais correto dizer que as inovações tecnológicas em si favorecem o cineclubismo. Mas, mais que isso, o próprio modelo de negócio, a estrutura de exploração dos mercados pelas indústrias do audiovisual, oferecem oportunidades – algumas novas, outras desde sempre – para a atividade de cineclubes. Por exemplo, a exploração comercial exaure o produto filme, tratando-o como uma mercadoria perecível, preferindo até fazer o notório remake a prolongar a vida de um clássico. No ramo literário, em que pese a dinâmica comercial, promovem-se reedições sucessivas; no cinema, não. Alguns entusiastas superficiais da tecnologia diriam que agora esses filmes estão todos disponíveis na internet[15]. Mas, enquanto alternativa efetivamente popular, esse acesso não é real. As cópias vendidas pelas empresas controladoras não são financeiramente acessíveis para a grande maioria – sem falar da informação e da apropriação elitista desta parte da cultura cinematográfica. E a procura de filmes significativos e notórios em termos estéticos, políticos, etc., na internet, além do crescente controle, não passa de algumas centenas de milhares de acessos distribuídos em períodos de vários anos: uma parcela muito diminuta da população em geral acessa de fato essa produção.  Ora, o Youtube, por exemplo, tem hoje 1 bilhão de usuários, 7 bilhões de visualizações por dia (metade delas, contudo, pelo celular). Alain Bergala[16] diz, meio sério, meio brincando, que  curtas-metragens feitos por realizadores ou grupos jovens são muita vez vistos apenas pelos amigos e familiares do realizador...

A forma atual de exploração do cinema, na verdade, abre imensas oportunidades para o cineclubismo. O deslocamento tecnológico do interesse comercial para outras “janelas” cria situações muito favoráveis aos cineclubes. Hoje, tanto ou mais que em qualquer outro período da história do público moderno, o cineclube contemporâneo tem grandes espaços e necessidades fundamentais a preencher na sociedade, ocupando os espaços abandonados pelo cinema comercial e oferecendo uma visão global e diversificada para todos os públicos. A tecnologia que, enquanto consumo, tem hoje um caráter de dominação e alienação; quando vista como fonte de programação, passa a ser revolucionária.

A favor dos cineclubes – política e organização

A maioria das instituições políticas vigentes desenvolveu-se acompanhando a evolução do capitalismo. As cidades burguesas, os estados nacionais, mas também os parlamentos, as universidades, as igrejas e um sem-número de instituições geradoras de práticas, costumes e valores tipicamente capitalistas, precedem de um tanto e certamente sobreviverão ao capitalismo num sentido mais estrito. Não há uma simetria, mas sim uma adequação assimétrica daquelas à evolução deste, de forma que justamente as instituições sobrevivem, transformam-se e se consolidam na medida dessa acomodação[17]. As revoluções burguesas paradigmáticas se deram nos séculos XVII e XVIII, mas o berço da nova classe dominante já se desenvolvia desde o século XI. O parlamento, instituição básica do domínio da classe, já engatinhava no século X, na Islândia, mas só adquiriu seu pleno sentido de arbitragem e moderação das relações de classe após a instalação definitiva da burguesia no poder.

Da mesma forma, as classes sociais que podem superar o capitalismo, também criam instituições não capitalistas, que vulneram o domínio burguês e preparam as bases de uma sociedade futura baseada na colaboração entre os seres humanos e não na exploração da maioria por uma ínfima minoria. Antonio Gramsci citava os grupos culturais populares, os sindicatos e, sobretudo, o partido político nacional-popular[18], capaz de conduzir o povo ao poder. Desde os anos 70, tenho escrito que a grande característica dos cineclubes é serem instituições desse tipo[19]: embriões de uma nova forma de organização do processo do cinema e do audiovisual, sem a separação entre as etapas econômicas de produção, distribuição e consumo, e com a integração livre dos aspectos criativos, identitários, educativos que, na perspectiva comercial, capitalista, só existem subordinados à dinâmica do lucro.

Vivemos hoje uma crise dessas instituições: dos partidos aos cineclubes e outras instituições culturais populares, passando pelos sindicatos. O neoliberalismo, triunfante, declara a morte prematura dessas instituições (ainda que siga investindo fortunas, metodicamente, no enfraquecimento das “falecidas”), os regimes de vocação populista neutralizam essas instituições pela cooptação, reproduzindo, aliás, o erro fundamental dos fracassados países do “socialismo real”. Os próprios segmentos populares e as concepções que exteriorizam – o pensamento de uma “esquerda” não muito definida – também em boa medida adotou esse discurso. Como alternativa às “velhas instituições” propõem uma horizontalização e informalidade absolutas, localizando a causa da suposta falência das organizações populares “tradicionais” na experiência do socialismo real (do antigo bloco soviético) burocrática e hierarquizada. É curioso que não se faça a ligação de burocracia e hierarquia com o autoritarismo, isto é, a incapacidade dos regimes socialistas de estabelecerem sociedades mais livres que seus concorrentes morais, os regimes capitalistas. Corolário dessa omissão, parte significativa dessa esquerda tampouco identifica ou reconhece os traços de autoritarismo nas experiências progressistas da América Latina, por exemplo. Outra lacuna que me parece importante, esquecem todos que o autoritarismo – mãe de todas as práticas não democráticas, como a burocracia, etc. – ocorreu historicamente em todas as experiências que evocaram o socialismo (da simpática Cuba ao horror do Cambodja) sobretudo pela pressão militar onipresente do inimigo. Parecem ignorar igualmente, que a ausência de organização não é uma criação nova; antes, está mais ligada a fórmulas igualitárias abstratas do século XIX, ou de pequenas sociedades autorreguladas e estanques.

Todo trabalho exige organização e especialização de tarefas. Ordenamento e divisão do trabalho. Que melhor exemplo que o cinema? Criar paramentos de prestígio ou poder em cima de funções de coordenação é que cria essa aura pejorativa no sentido do termo hierarquia. Ou de burocracia que, sem esse viés, designa mais um procedimento metodológico. Toda instituição ou organização implica em colaboração estruturada, e o estabelecimento de regras transparentes é a maior garantia da sua lisura e democracia.  Há menos “hierarquia” abstrata num cargo eletivo com mandato determinado que na entrega da representação e/ou coordenação de entidades e pessoas de maneira informal. Para alguns, as palavras presidente ou tesoureiro podem soar mais autoritárias que coordenador, por exemplo, mas o mandato daqueles é definido em atribuição e duração, sujeito a supervisão e controle; e o deste pode tornar-se infindo e pouco compreendido no plano público, permitindo toda sorte de abuso.

A experiência recente de mobilizações sociais sem estrutura organizativa definida e unificadora, em todo o mundo[20], produziu grandes protestos cívicos, mas resultou quase sempre no fortalecimento das classes dominantes e suas organizações político-institucionais.

O capitalismo não se instituiu unicamente pelo processo revolucionário que culminou e consolidou seu predomínio. Isso só foi possível porque já havia uma sociedade formada em grande parte por instituições capitalistas. Sua hegemonia se estabeleceu absoluta com o último impulso revolucionário, mas não seria possível apenas a partir dele. Como, em sentido inverso, aconteceu nos países do “socialismo real”: à tomada do poder pela via revolucionária, militar ou até por invasão libertadora, não correspondeu a criação de uma superestrutura institucional completamente nova e superior “intelectual e moralmente” às instituições burguesas. Como dizia Gramsci, a hegemonia só se estabelece com as duas funções, de domínio e de direção. Negligenciar uma delas equivale ao fracasso político.

O cineclube, reinventando sempre formas de organização de suas práticas, não pode abrir mão de uma estrutura transparente e democrática que permita a sua reprodução e renovação através de procedimentos democráticos. Sem um método e forma de integração do público na sua condução, na sua direção, o cineclube não cumpre sua atribuição essencial – organizar o público – abandona a perspectiva da emancipação do público, equivalente contemporâneo do velho proletariado, aqueles que não possuem os meios de produzir sua consciência, identidade, humanidade. Sem organização, o cineclube se condena a ser apenas um coadjuvante desprezado no gigantesco campo do comércio audiovisual.

Formas do cineclube contemporâneo

            A todas as observações que fiz acima, preciso juntar a rica experiência dos três últimos anos militando no Cineclube Latino Americano Juan Carlos Arch. Na condição de diretor de Atividades Culturais do Memorial da América Latina, em São Paulo, tive oportunidade de facilitar a instalação do cineclube em espaços dessa entidade. E como militante do cineclube, depois de muitos anos afastado[21] da convivência cotidiana com o público, pude vivenciar e avaliar as imensas transformações por que passaram o público urbano moderno, a militância cineclubista de base e, claro, os recursos técnicos da atividade. O Cineclube Latino-Americano foi uma espécie de laboratório para a comprovação da validade da experiência centenária da organização cineclubista e, simultaneamente, um aprendizado da articulação desta com novas ferramentas e práticas do público.

Este texto tem este formato espelhado – primeira e segunda parte “espelham” os argumentos para chegar ao desafio proposto pelo título do artigo - em boa medida baseado na mesma idéia: comparar e aproveitar a experiência histórica do cineclubismo para compreender e propor seu papel na atualidade. A prática diária no cineclube, ainda que limitada ao campo de atuação[22] que lhe dá sua identidade particular, me ajudou a compreender melhor as mudanças que se manifestavam também - mas de forma diferente – no plano do movimento e do público em seu sentido mais amplo. Foi essencial para complementar esta reflexão.

         A chamada globalização – termo usado para descrever o avanço do capitalismo neoliberal sobretudo nos anos de falência do bloco comunista e de redemocratização formal na América Latina (em termos econômicos: intensa privatização), apoiado no desenvolvimento das tecnologias cibernéticas, sobretudo entre os anos 80 e o início deste século – não deu muita conta de avaliar o novo processo de integração das populações ao capitalismo, cujos efeitos mais claros se manifestam um pouco depois.

         A reprodução do sistema adquiriu um novo significado, entrando nos planos simbólicos e subjetivos como nunca antes. Hoje, a sujeição ao capital já não se dá exclusivamente através da produção de mais-valia no trabalho, mas pela própria apropriação do universo pessoal subjetivo do público: basta acessar a rede mundial para já estar produzindo ganhos para os proprietários das - ironicamente chamadas – redes sociais. Vivemos um novo ciclo de expansão geográfica - reintegrando os mercados dos antigos países socialistas e promovendo uma ampla privatização nos países emergentes - e vertical - incorporando ou criando novos mercados pelas mudanças tecnológicas e promovendo até uma abertura limitada a novos segmentos sociais, de gênero, etc. Paralelamente, entre o bombardeio maciço, a miséria e a fome[23], ocorre o maior êxodo populacional desde a II Guerra Mundial.

Ou, no nosso terreno: a uniformização e vulgarização da comunicação cultural, o isolamento e alienação do público atingem níveis inéditos, beirando a patologia nas chamadas redes sociais. Ao que se soma a supremacia ideológica do individualismo e o enfraquecimento das instituições populares.

O cineclube contemporâneo tem que se posicionar frente a tudo de que este texto tratou até aqui: considerar as oportunidades – que são muitas – e adequar-se aos novos comportamentos dos públicos e da militância na conjuntura atual. Evidentemente, as diferenças entre comunidades e contextos continuam a existir – felizmente – mas gostaria de tratar de um paradigma possível, adaptável, que possa considerar a realidade contemporânea e, ao mesmo tempo, adequar-se ou ajudar a pensar e construir a grande maioria das práticas localizadas.

Terceira parte : o cineclube contemporâneo

O cineclube contemporâneo tem que a) assimilar a evolução tecnológica – e isso de maneira permanente e flexível – b) compreender a situação social, econômica e cultural concreta, isto é, como se situar frente ao modo de consumo do audiovisual atual e c) estabelecer um projeto de atuação em relação a essa realidade. Tratei das duas primeiras questões até aqui. Agora vou tentar articulá-las com um projeto de cineclube para os dias atuais. Na minha compreensão, isso inclui o reexame e aproveitamento criativo da nossa experiência histórica concreta.

1.   A instituição audiovisual da comunidade

É indiscutível que a família, a escola, as igrejas são instituições básicas na formação e socialização das pessoas. A mídia, porém, que em suas diversas formas é, hoje, fundamentalmente audiovisual, tornou-se um dos, senão o principal pilar de socialização e mediação social, em todos os níveis, na sociedade contemporânea. Seu controle e direcionamento são exercidos por uma ínfima minoria detentora do capital, sempre em grau acelerado de concentração. Concentração financeira, da qual têm derivado também crescentes uniformização e empobrecimento de linguagem e conteúdos, resultando numa alienação[24] montante.

O cineclube não é (apenas) um espaço de exibição ou de educação de uma plateia. Ele é, justamente, a instituição do público que se opõe à sua dominação e exploração. É a base, o embrião da construção de um novo sistema (o movimento cineclubista em sentido amplo, baseado nas práticas colaborativas dos cineclubes) de comunicação social e autoformação do público. Um sistema que integra produção, circulação e consumo; consumo criativo e produtivo, que fecha essa equação. Essa é a herança atualizada dos cineclubes fundadores, que chamei de revolucionários.

O cineclube contemporâneo precisa ser visto como elemento indispensável da comunidade, central na sua vida social, na construção, preservação e afirmação de sua identidade. A instituição audiovisual do público. A experiência e o sucesso das film societies aponta, ainda que de maneira parcial e incompleta, para essa condição.

2.   Base social do cineclube contemporâneo

    Como afirmei no começo deste texto, as salas comerciais de cinema se concentraram nos polos de maior poder econômico, principalmente nos países menos desenvolvidos, e no estilo padronizado das superproduções para públicos menos exigentes esteticamente – ou mais integrados ideologicamente. Já o audiovisual em geral, que não se estrutura sobre um espaço físico – a sala de cinema - está presente em toda parte: televisores, computadores dispositivos móveis, e em diferentes produtos, formatos e linguagens, como informativos, novelas, jogos, redes sociais, etc.

As salas de cinema, contudo, mesmo que já não constituam o principal veículo do audiovisual comercial, ainda ocupam um papel muito relevante social e culturalmente. O filme (narrativa ficcional ou documental, especialmente de longa-metragem) é um formato típico da sala de cinema; mesmo que não mais exclusivo, tem nela condições muito especiais de fruição e consumo. As salas de cinema são um índice cultural importante para compreendermos as sociedades: os EUA têm uma sala para cada 9 mil habitantes; a França, uma para 11 mil; o Reino Unido, para 16 mil. Brasil e Índia, com populações tão desproporcionais, têm uma sala para cada 100 mil pessoas.

O cineclube contemporâneo, para atender, responder proporcionalmente às necessidades do público, também deve ter uma relação proporcional com a distribuição geográfica e social da população. O Brasil tem uma forte concentração populacional nas grandes regiões metropolitanas – quase metade da população (90 milhões) - e uma enorme dispersão de pequenas comunidades: 3,8 mil municípios com 20 mil habitantes ou menos. Um quadro simplificado dá uma ideia dessa distribuição:

Cidades brasileiras
número
Total
5.570
Regiões metropolitanas
20
200.000 habitantes ou mais
160
Entre 100.000 e 200.000
150
Entre 50.000 e 100.000
350
Entre 20.000 e 50.000
900
Até 20.000
3.800

         Como se sabe, dentro do modelo econômico excludente, as áreas nas cidades maiores e regiões metropolitanas são altamente diferenciadas; nas localidades menores, onde os privilegiados são pouco numerosos e mais afastados, pode-se observar uma maior uniformidade cultural.

         Atrevo-me a sugerir, então, partirmos de uma relação de um cineclube deste novo tipo para cada 50 mil habitantes, nas áreas de maior concentração, e um para cada 20 mil nas regiões de maior dispersão da população. Apesar da abstração estatística, esta proposta também se apoia em observações empíricas: nas cidades maiores, a facilidade de comunicação e transporte permite trabalhar com uma base geográfica maior, geralmente localizada nas periferias ou nos velhos centros mais deteriorados. Nas demais cidades (de menos de 20 mil habitantes), uma minoria – cerca de mil localidades – têm menos de 5 mil habitantes; nestes casos, a experiência bem sucedida de alguns cineclubes ou iniciativas congêneres tem sido a de promover sessões itinerantes.

         Esse ambicioso objetivo implicaria na criação de entre 4 mil e 8 mil cineclubes, uma tarefa de médio e longo prazo mesmo se apoiada pelo Estado - o que não parece ter muita chance de acontecer. Note-se bem: o cineclube que estou preconizando não tem praticamente nada a ver com os espaços precários de exibição promovidos há alguns anos pelo governo federal e alguns estaduais. Ou com salas geridas pelo próprio Estado, ou terceirizadas para a iniciativa privada, como no projeto da prefeitura de São Paulo[25].

3.   Base humana e econômica do cineclube contemporâneo

Consolidar um cineclube com a proposta que estou desenvolvendo aqui é tarefa dificílima, muito distante do modelo de exibições quase sem estrutura ou periodicidade definida que constituem atualmente a grande maioria das atividades culturais com audiovisual no Brasil. Como evoca a citação de Pepe Mujica na abertura deste artigo, trata-se de um compromisso vital, de um trabalho de alta dedicação, que tem como objetivo contrapor-se coletivamente e substituir, no coração e mente do público, a visão subalterna de seu lugar no mundo, contribuindo para a sua emancipação integral.

Minhas experiências mais pessoais, com o PopCine[26] e com o Cineclube Latino-Americano, juntam-se à observação dos modelos mais bem sucedidos (em termos de estabilidade) de cineclube e da própria falência do modelo de militância de 30 ou mais anos atrás. Como juntar, então,  estes dois parágrafos numa proposta coerente?

Sem um financiamento definido, o modelo de cineclube (ver o item 5 seguinte: estrutura) que proponho demandará esforço e dedicação, mas pode viabilizar-se a médio prazo (até 2 anos). Cobrando uma taxa de manutenção (ingresso), de associação ou outra forma de contribuição financeira; realizando eventos festivos e promoções; captando publicidade no comércio local e doações (Lei Rouanet para pessoa física) pessoais na comunidade, o cineclube pode começar a melhorar suas condições de instalação e atividade, e dar ajudas de custo que permitam garantir uma participação mais intensa dos militantes (cuidando para não “distribuir resultados financeiros”, mas apenas remunerar o trabalho indispensável). Com muito trabalho e criatividade, essa situação pode se tornar um círculo virtuoso: melhores condições, mais participação, melhores resultados.

4.   Cineclube e Estado

Evidentemente, uma política pública que reconhecesse a importância do cineclubismo constituiria um diferencial importantíssimo para a viabilização de um projeto como o do cineclube contemporâneo. Mas, como já disse, esta não é a postura dos governos petistas, em todos os níveis, e muito menos das suas oposições. Apenas um movimento cineclubista forte, com peso e repercussão social e cultural, seria capaz de alterar essa situação. E isso está totalmente para se construir – esta proposta pretende ser um caminho.

Adianto aqui, para referência, as questões legais e institucionais principais que precisam ser resolvidas junto ao Estado para que o cineclubismo se desenvolva livremente:

a)        Simplificação do registro em cartório e reconhecimento institucional em geral, hoje cheio de burocracias e taxas,
b)        Reconhecimento da imunidade tributária dos cineclubes – que é inerente, já que não têm fins lucrativos, e
c)        Plena liberdade de exibição, sem sujeição aos limites dos direitos patrimoniais.

Estes três pontos são as bandeiras prioritárias e permanentes da exibição cultural no Brasil. Do ponto de vista administrativo, a relação dos cineclubes com o Estado deveria ser tratada diretamente com o município, para o qual devem ser transferidos os recursos federais e estaduais que possam ser alocados para o fomento do cineclubismo.

5.   Estrutura e papel do cineclube contemporâneo na comunidade

No item 3, fiz algumas considerações gerais sobre o tipo de trabalho que requer o cineclube contemporâneo. Elas supõem o estabelecimento gradual (ou imediato, se houver recursos) de uma estrutura completa e funcional para a promoção de uma ampla gama de atividades. Considerando ainda o que desenvolvi no item 2, isto é, uma base social ideal entre 20 mil e 50 mil pessoas, o cineclube deve ter:

o   instalações físicas para projeção e outras atividades que usem auditório, com pelo menos 100 lugares (menos, em comunidades menores) confortáveis, tela em torno de 4 x 7 m, pé direito e ângulo de visão adequados;
o   área para bar-bomboniére, com espaço para recepções, lançamentos, exposições, etc.;
o   espaços para administração, arquivo, estudos e depósito de equipamentos;
o   sala para estúdios de web rádio e web tv, e
o   acesso a área para festas maiores

A programação deve ser a mais variada possível, entendida como uma construção que resulta da sua real apropriação pela comunidade. À medida que o público goste, se acostume e adquira o hábito de frequentar o cineclube, a programação deve se intensificar tanto quanto possível, e se diversificar, atendendo a escolas[27], por exemplo, ou a públicos determinados: crianças, jovens, idosos ou por grupos de interesse, como acompanhamento de novelas, aprofundamento de temas para estudo formal ou informal, etc.

É fundamental que o cineclube contemporâneo crie formas de relação à distância com o público, seja como programação mesmo (produção própria ou de outras fontes independentes, noticiário local, etc.), para incrementar a participação (grupos de what’s up para agilizar o trabalho) ou para propaganda e publicidade. A produção de publicidade para o comércio ou outras iniciativas locais pode ser uma fonte importante de recursos para o cineclube. E um serviço para a comunidade, no caso de campanhas educativas: vacinação, segurança, etc.

A produção é atividade essencial do cineclube contemporâneo. Seu papel na comunidade deve necessariamente envolver a documentação e preservação da vida e da história comunitária. Da mesma forma, à medida que o cineclube se integre à criação cultural em geral da comunidade, pessoal ou coletiva, essa produção vai envolver a ficção e a experimentação. A produção para as novas plataformas audiovisuais -– especialmente na internet – permitem que o cineclube dispute também o espaço audiovisual ocupado pela produção comercial.

Essa produção do cineclube, reunida aos resultados de uma coleta da produção comunitária existente e/ou anterior (fotos, filmes de família, instantâneos e vídeos de celulares, etc.) deve ter um espaço próprio e condições básicas de conservação. Nos casos que demandem recursos mais complexos de preservação, o cineclube deve articular-se com outras instituições, como arquivos e cinematecas.

6.   Movimento cultural e social

O cineclube contemporâneo não é uma invenção abstrata, mas a sistematização de uma longa série de experiências históricas. Já em 1911 há menção de uma sala de cinema em Los Angeles que funcionava diariamente e, segundo seus dirigentes, era um espaço de luta contra o cinema opressor, único que, fora dali, se oferecia ao povo. Mais perto de casa, no tempo e no espaço, temos os “cineclubes 35 mm” que funcionaram, também diariamente, em diversas cidades brasileiras nos anos 80, com enorme sucesso. Alguns deles, inclusive, transformaram-se em salas comerciais e, depois, grandes circuitos de exibição[28]. A maioria, entretanto, não conseguiu sobreviver à especulação imobiliária que também matou os cinema de rua. Acredito que, além de todas as pressões que se abateram sobre eles, um grande motivo para o seu desaparecimento foi a incapacidade que tiveram de encontrar uma forma de união, de fortalecimento mútuo. Também mencionei a experiência do PopCine que, projetado para ser um circuito, cometeu o erro de depender inteiramente do Estado – que não cumpriu o programa.

Cineclubes organizados nestas bases, de árdua construção, serão, por outro lado, instituições fortes e influentes em cada comunidade. Sua estrutura permitirá uma ação que influencie a educação formal, junto às escolas, e informal, através do lazer integrado à socialização, à civilização e a emancipação da maioria. Contribuirá para a inclusão social, mesmo nas mais distantes e pequenas localidades, constituindo uma rede de exibições e outras atividades itinerantes, bem como pelo alcance da internet, radio e tevê. O cineclube contemporâneo tem os mesmos princípios defendidos há 100 anos pelo primeiro cineclube que conhecemos melhor: Divertir, instruir, emancipar!

Na medida em que consigam construir um projeto comum e atuem como movimento, terão grande capacidade de pressão sobre o Estado e influência sobre os próprios rumos do cinema e do audiovisual. Em última instância, estarão criando um novo cinema e uma nova organização institucional para a comunicação, o aprendizado, a expressão artística. Base essencial para se constituir uma sociedade plenamente livre e consciente.

  

Notas:

[1] Há exceções importantes a esse “individualismo”: muita gente inclui na cinefilia os fandoms – comunidades de fãs de gêneros, como a ficção científica ou os animes – com suas publicações, convenções e outras atividades. O video game, também é outra forma de audiovisual que reúne comunidades, online e em campeonatos. Os apreciadores de ópera também se reúnem em salas de cinema que passaram a promover “sessões” desse tipo. Por outro lado, não há realmente comunidades importantes de cultuadores de cinema; Sua fruição em provedores como o Youtube se dá em privado, individualmente.
[2] O que é cineclube? Disponível em http://www.cineclube.utopia.com.br/
[3] Teses para uma jornada de cineclubes e entidades congêneres - 4. As divisões do público: enquadrados, rebeldes e tutelados, disponível em http://felipemacedocineclubes.blogspot.com.br/2015/07/teses-para-uma-jornada-de-cineclubes-e_7.html
[4] O modelo melhor documentado desse tipo de cineclube é o do Cinema do Povo, de 1913. Ver mais em: http://felipemacedocineclubes.blogspot.com.br/2010/03/cinema-do-povo-o-primeiro-cineclube.html 
[5] Mas igualmente nas predicações protestantes e nas iniciativas de controle dos trabalhadores, de sindicatos patronais ou de organizações como a YMCA (Associação Cristá de Moços), no começo do século XX.
[6] Os padres jesuitas já empregavam lanternas mágicas para atrair e catequisar os indígenas, por exemplo nas Missões, na América do Sul, desde o século XVII.
[7] Principalmente as sessões de promoção de revistas – Journal du Cinéclub, Cinéa - editadas por Louis Delluc (de onde se consolidaria o termo cineclube) e o Clube dos Amigos da Sétima Arte, de Ricciotto Canudo, frequentemente tidos como os primeiros cineclubes.
[8] De Baecque, Antoine. 2011. Cinefilia - Invenção de um Olhar, História de uma Cultura: 1944-1968. Cosac Naify.
[9] Na verdade, a observação de De Baecque cobre poucos cineclubes de jovens da classe média na capital francesa. Nessa mesma época havia milhares de cineclubes na cidade e na França.
[10] La passion du cinéma: cinéphiles, ciné-clubs et salles spécialisées à Paris de 1920 à 1929. O trabalho de Gauthier considera um campo mais amplo que o dos cineclubes, como o título já indica, inclusive anteriores aos anos 50, procurando sistematizar atividades comuns ao que denomina cinefilia.
[11] 1928-1930, Rio de Janeiro.
[12] Dados do relatório Theatrical Market Statistics 2013, da Motion Pictures Association of America (MPAA).
[14] No Brasil, seguindo este raciocínio, os segmentos seriam três: meia dúzia de capitais que dispõem de um circuito de “salas de arte”,  o público dos xópins (equivalente das massas do primeiro mundo) e o enorme descampado dos “sem tela”.
[15] Esse fato é indiscutível, a tecnologia abriu de fato essa perspectiva de acesso a cópias de qualidade, ainda que selecionadas com um viés primeiromundista. E do ponto de vista de acesso “legal”, só disponibilizadas de acordo com as normas da MPAA. Há acesso também a um universo ainda mais amplo no Youtube e outros arquivos (e isto pode facilitar a programação de cineclubes).
[16] Teórico, educador e realizador ensaísta francês.
[17] Muitas outras instituições não são exclusividade do capitalismo – como a família, a propriedade privada, etc. – mas se transformam e se adequam à reprodução do sistema, inclusive das próprias modificações deste.
[18] O conceito de nacional-popular não se restringe ao espaço geográfico nacional, mas remete à capacidade da maioria, popular, de construir a direção da totalidade social que se identifica como nação. Teoricamente o conceito se aplica igualmente ao espaço inteiro da Terra, quando chegarmos a nos identificar nesse nível.
[20] Da chamada “primavera árabe” aos “indignados” europeus e movimentos de “ocupe-se”, sobraram o caos e anomia sob bombardeio, disputas fratricidas promovidas por interesses estrangeiros, a recomposição de velhas ditaduras ou simplesmente a vitória eleitoral das direitas. Mais recentemente, na Espanha e na Grécia, um retorno à opção partidária tem aberto novas perspectivas, ainda a observar.
[21] Desde que deixei o Elétrico Cineclube, há 20 anos, tenho trabalhado com cinema e televisão e passei mais de dez anos em Montreal, trabalhando alguns anos com tradução e legendagem de filmes e pesquisando o cineclubismo na Universidade, mas sem uma prática cineclubista tradicional, diária.. Entre 2003 e 2009 colaborei intensamente na direção nacional do cineclubismo brasileiro e, até 2013, com a Federação Internacional de Cineclubes, mas também sem o trabalho cotidiano do meu cineclube. No Cineclube Latino Americano, ao contrário, essa vivência foi muito intensa.
[22] A comunidade do Cineclube Latino Americano é o interesse pelo cinema e a cultura do continente; seu público, o do espaço metropolitano inteiro de São Paulo (e até de outras cidades, fora da Grande São Paulo!).
[23] Que reduziram a escombros, nos últimos 5 nos, vários países: Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Iêmen, Eritréia, Etiópia, Somália, Sudão, e deixa outros em eterna precariedade social e política, em catástrofe nacional, como o Haiti, Bangladesh, ou à beira da guerra civil, como Mali, Níger, Nigéria, Congo, Camarões, Burkina Fasso. Na América do Sul, o Brasil é um dos maiores polos de imigração não apenas do nosso continente, mas também da África.
[24] As pessoas não apenas alienam sua relação com o  trabalho, a vida social e o próprio planeta, mas adquirem, cada vez mais, comportamentos compulsivos, agressivos, neuróticos, aderindo a crenças extremistas e instaurando – sobretudo, mas não exclusivamente, nos países dependentes – um nível de violência social absolutamente contraditório com o grau de civilização que a cultura e a mídia permitiriam generalizar.
[25] Considerando a instabilidade política atual do Brasil, é preciso esclarecer que também não creio que esteja no horizonte de outras políticas culturais, de eventuais grupos oposicionistas que, por sua vez, preconizam delegar toda iniciativa cultural à empresa privada.
[27] O trabalho com escolas da “base territorial” do cineclube é uma questão especial. A articulação cineclube/escola pode permitir um intercâmbio com o corpo docente, além de pais e alunos, abrindo grandes perspectivas de integração do cinema e do audiovisual nos currículos. A  programação sistemática de sessões para as escolas pode trazer para o cineclube um significativo aporte financeiro que, de outro lado, seria extremamente econômico para as instituições educacionais (Secretaria de Educação).